Álvaro Macedo

Para espairecer com literatura, músicas, dicas…

Rancor

“Guardar rancor contra alguém é como tomar veneno e esperar que esse alguém morra.”

William Shakespeare

domingo, 23.novembro.2008 Publicado por | Pensamentos | Deixe um comentário

Mistérios do Céu

“Quando quiseres indagar a respeito dos mistérios do Céu, sonda o segredo divino que palpita na flor.”

Mariano José Pereira da Fonseca.

domingo, 23.novembro.2008 Publicado por | Pensamentos | Deixe um comentário

Poema em Linha Reta

Gosto muito desse poema do Fernando Pessoa. Um colega da General Motors me falou dele (já se vão cerca de 25 anos!!) e, por algum motivo que não lembro, me veio à memória essa semana. Ele (o Fernando) o escreveu com o heteronônimo Álvaro Campos. Fernando Pessoa usou vários heterônimos. O mais profícuo deles foi o de Álvaro Campos. Caso queiram também ouvi-lo numa magnífica interpretação de Paulo Autran, acessem o endereço abaixo. Bom proveito.
http://www.youtube.com/watch?v=SJGapSGp_lc

Ao final, uma breve visão da história de Fernando Pessoa.

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Nunca conheci quem tivesse levado porrada.
Todos os meus conhecidos têm sido campeões em tudo.

E eu, tantas vezes reles, tantas vezes porco, tantas vezes vil,
Eu tantas vezes irrespondivelmente parasita,
Indesculpavelmente sujo,
Eu, que tantas vezes não tenho tido paciência para tomar banho,
Eu, que tantas vezes tenho sido ridículo, absurdo,
Que tenho enrolado os pés publicamente nos tapetes das etiquetas,
Que tenho sido grotesco, mesquinho, submisso e arrogante,
Que tenho sofrido enxovalhos e calado,
Que quando não tenho calado, tenho sido mais ridículo ainda;
Eu, que tenho sido cômico às criadas de hotel,
Eu, que tenho sentido o piscar de olhos dos moços de fretes,
Eu, que tenho feito vergonhas financeiras, pedido emprestado sem pagar,
Eu, que, quando a hora do soco surgiu, me tenho agachado
Para fora da possibilidade do soco;
Eu, que tenho sofrido a angústia das pequenas coisas ridículas,
Eu verifico que não tenho par nisto tudo neste mundo.

Toda a gente que eu conheço e que fala comigo
Nunca teve um ato ridículo, nunca sofreu enxovalho,
Nunca foi senão príncipe – todos eles príncipes – na vida…

Quem me dera ouvir de alguém a voz humana
Que confessasse não um pecado, mas uma infâmia;
Que contasse, não uma violência, mas uma cobardia!
Não, são todos o Ideal, se os oiço e me falam.
Quem há neste largo mundo que me confesse que uma vez foi vil?
Ó príncipes, meus irmãos,

Arre, estou farto de semideuses!
Onde é que há gente no mundo?

Então sou só eu que é vil e errôneo nesta terra?

Poderão as mulheres não os terem amado,
Podem ter sido traídos – mas ridículos nunca!
E eu, que tenho sido ridículo sem ter sido traído,
Como posso eu falar com os meus superiores sem titubear?
Eu, que venho sido vil, literalmente vil,
Vil no sentido mesquinho e infame da vileza.

Uma visão breve sobre a vida e a obra do maior poeta da língua portuguesa:
- 1888: Nasce Fernando Antônio Nogueira Pessoa, em Lisboa.
- 1893: Perde o pai.
- 1895: A mãe casa-se com o comandante João Miguel Rosa. Partem para Durban, África do Sul.
- 1904: Recebe o Prêmio Queen Memorial Victoria, pelo ensaio apresentado no exame de admissão à Universidade do Cabo da Boa Esperança.
- 1905: Regressa sozinho a Lisboa.
- 1912: Estréia na Revista Águia.
- 1915: Funda, com alguns amigos, a revista Orpheu.
- 1918/1921: Publicação dos English Poems.
- 1925: Morre a mãe do poeta.
- 1934: Publica Mensagem.
- 1935: Morre de complicações hepáticas em Lisboa.

Os versos acima, escritos com o heterônimo de Álvaro de Campos, foram extraídos do livro “Fernando Pessoa – Obra Poética”, Cia. José Aguilar Editora – Rio de Janeiro, 1972, pág. 418.

domingo, 23.novembro.2008 Publicado por | Literatura | Deixe um comentário

Hay Hombres que Luchan un Día

Sempre achei que fosse do Che. Tem cara, não tem? Um dia resolvi pesquisar no Pai dos Googles, para conhecer a frase corretamente. Surpresa! Era de um alemão. Bertolt Brecht. Um dramaturgo alemão. Segue o pensamento todo, mais um micro-CV dele (ou nano-CV, porque a coisa é pequena mesmo) e um poema. Tirei tudo do site referenciado, inclusive o poema do Brecht, do caderno Mais, da Folha. Não sou lá aquelas coisas em poemas, mas valorizo quem os consegue fazer e gostei desse.
Ao procurar descobrir porque esse texto do Bertolt aparece em espanhol, descobri mais esse material que achei fantástico, do poeta poeta Rómulo de Carvalho, conhecido pelo pseudónimo de António Gedeão (apenas para esclarecer, não achei o porquê do espanhol; quem souber, favor colocar no comentário):

“Eles não sabem, nem sonham,
que o sonho comanda a vida,
que sempre que um homem sonha
o mundo pula e avança
como bola colorida
entre as mãos de uma criança.”

Esqueci de dizer que esse poemeto me lembrou do Pedro que me disse um dia algo do tipo: cuidado com o dia em que você não acreditar mais nos sonhos. Essa idéia, ele não sabe, tem caminhado comigo ao longo da vida. Inclusive a utilizei um dia em que fiz um culto ecumênico (acreditam?) na formatura de uma turma de computação da UFSCar. Citei que veio de um amigo (e, aliás, compadre). Sempre que penso em sonhos, lembro do Pedro, grande Pedro. Alma ímpar que faz parte de minhas felizes relações.

Agora vamos ao Bertolt.
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http://www.releituras.com/bbrecht_menu.asp
acessada em 11.11.2006
Bertolt Brecht

“Hay hombres que luchan um dia y son buenos. Hay otros que luchan un año y son mejores. Hay quienes que luchan muchos años y son mui buenos. Pero hay los que luchan toda la vida, Esses son los indispensables.” (Bertolt Brecht)
Também conhecia, no lugar de “indispensables”, o “imprescindibiles“. Acho que esse é o mais correto. Vi alguns sites citarem essa forma.

Bertolt Brecht nasceu em Augsburg, Alemanha, em 1898. Em 1917 inicia o curso de medicina em Munique, mas logo é convocado pelo exército, indo trabalhar como enfermeiro em um hospital militar. Aquele que iria se tornar uma das mais importantes figuras do teatro do século XX, começa a escrever seus primeiros poemas e cedo se rebela contra os “falsos padrões” da arte e da vida burguesa, corroídas pela Primeira Guerra. Tal atitude se reflete já na sua primeira peça, o drama expressionista “Baal”, de 1918. Colabora com os diretores Max Reinhardt e Erwin Piscator. Recebe, no fim dos anos 20, instruções marxistas do filósofo Karl Korsch. Em 1928, faz com Kurt Weill a “Ópera dos Três Vinténs”. Com a ascensão de Hitler, deixa o país em 1933, e exila-se em países como a Dinamarca e Estados Unidos da América, onde sobrevive à custa de trabalhos para Hollywood. Faz da crítica ao nazismo e à guerra tema de obras como “Mãe coragem e seus filhos” (1939). Vítima da patrulha macartista, parte em 1947 para a Suíça — onde redige o “Pequeno Organon”, suma de sua teoria teatral. Volta à Alemanha em 1948, onde funda, no ano seguinte, a companhia Berliner Ensemble. Morre em Berlim, em 1956.

Aos que vierem depois de nós
Bertolt Brecht(Tradução de Manuel Bandeira)Realmente, vivemos muito sombrios!
A inocência é loucura.
Uma fronte sem rugas
denota insensibilidade. Aquele que ri
ainda não recebeu a terrível notícia
que está para chegar.

 

Que tempos são estes, em que
é quase um delito
falar de coisas inocentes.
Pois implica silenciar tantos horrores!
Esse que cruza tranqüilamente a rua
não poderá jamais ser encontrado
pelos amigos que precisam de ajuda?

É certo: ganho o meu pão ainda,
Mas acreditai-me: é pura casualidade.
Nada do que faço justifica
que eu possa comer até fartar-me.
Por enquanto as coisas me correm bem
(se a sorte me abandonar estou perdido).
E dizem-me: “Bebe, come! Alegra-te, pois tens o quê!”

Mas como posso comer e beber,
se ao faminto arrebato o que como,
se o copo de água falta ao sedento?
E todavia continuo comendo e bebendo.

Também gostaria de ser um sábio.
Os livros antigos nos falam da sabedoria:
é quedar-se afastado das lutas do mundo
e, sem temores,
deixar correr o breve tempo. Mas
evitar a violência,
retribuir o mal com o bem,
não satisfazer os desejos, antes esquecê-los
é o que chamam sabedoria.
E eu não posso fazê-lo. Realmente,
vivemos tempos sombrios.

Para as cidades vim em tempos de desordem,
quando reinava a fome.
Misturei-me aos homens em tempos turbulentos
e indignei-me com eles. Assim passou o tempo
que me foi concedido na terra.

Comi o meu pão em meio às batalhas.
Deitei-me para dormir entre os assassinos.
Do amor me ocupei descuidadamente
e não tive paciência com a Natureza.
Assim passou o tempo
que me foi concedido na terra.

No meu tempo as ruas conduziam aos atoleiros.
A palavra traiu-me ante o verdugo.
Era muito pouco o que eu podia. Mas os governantes
Se sentiam, sem mim, mais seguros, — espero.
Assim passou o tempo
que me foi concedido na terra.

As forças eram escassas. E a meta
achava-se muito distante.
Pude divisá-la claramente,
ainda quando parecia, para mim, inatingível.
Assim passou o tempo
que me foi concedido na terra.

Vós, que surgireis da maré
em que perecemos,
lembrai-vos também,
quando falardes das nossas fraquezas,
lembrai-vos dos tempos sombrios
de que pudestes escapar.

Íamos, com efeito,
mudando mais freqüentemente de país
do que de sapatos,
através das lutas de classes,
desesperados,
quando havia só injustiça e nenhuma indignação.

E, contudo, sabemos
que também o ódio contra a baixeza
endurece a voz. Ah, os que quisemos
preparar terreno para a bondade
não pudemos ser bons.
Vós, porém, quando chegar o momento
em que o homem seja bom para o homem,
lembrai-vos de nós
com indulgência.

O poema acima foi extraído do caderno “Mais!”, jornal Folha de São Paulo – São Paulo (SP), edição de 07/07/2002, tendo sido traduzido pelo grande poeta brasileiro Manuel Bandeira.

domingo, 23.novembro.2008 Publicado por | Literatura | Deixe um comentário

Sob Outro Olhar

Pessoal, esse não faz parte do Entre Outras Coisas. É uma crônica leve, da qual gostei muito. Retrata um momento bom que tive em Salvador / BA, no Teatro Castro Alves e no restaurante do hotel em que estava hospedado. Espero que curtam o texto como curti o momento. Um abraço.
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A consciência é uma maquininha danada que teima em não nos dar sossego. De certa forma isso é bom. É a nossa referência. Claro que alguns a têm numa dosagem muito modesta. Mas não vou me ater a fazer críticas dos outros. Vou pensar somente na minha, que não quero classificar como muito pequena, escondendo-me atrás da máscara de uma falsa modéstia, e nem como grande, porque tenho noção, mesmo que inexata, de posição. E sei que estoy lejo, mui lejo, do topo. Por que em espanhol? Sei lá. Saiu assim. Metidez talvez. Vinho, quem sabe? Estou fugindo do foco. Oh, maldita digressão que me afasta do objeto central! Oh, bendita digressão que me permite viajar por minha própria mente, descobrindo pequenas boas coisas escondidas em seus escaninhos.
Retomando o pé do que talvez não tenha pé nem cabeça, cá estou em Salvador, Bahia. Sorvo mais um gole do meu Malbec, Finca La Linda, argentino. Meu Deus, como estou metido! Não, acho que não é isso. Apenas estou curtindo! E muito! O que vim eu fazer nas terras de papai, nordestino que migrou e deu certo? E gerou um filho metido. Nem tanto, espero (refiro-me ao “metido”). Vim cumprir uma obrigação (que horror, parece desagradável!), uma missão (até parece que tenho estatura para ser missionário), seja lá o que for, vim a trabalho e acho que cumpri meu papel (que piano magnífico que ouço enquanto janto!). Aparentemente as pessoas gostaram. Não, não estou falando do piano, mas sim da minha palestra. O piano está lá, enriquecendo esse momento do meu jantar. E as pessoas devem estar gostando, como eu. Mas não falo dele. Oh, bendita digressão!
Cumprido meu papel, se é que ele tem fim e estará um dia cumprido, resolvi dar-me um tempo nessa noite (o papel foi cumprido durante o dia; ô mania de ficar explicando tudo o que não tem importância) e fui assistir, no Teatro Castro Alves, ao ballet O Quebra-nozes. Simplesmente fantástico! Com “F” maiúsculo. Aliás, tudo maiúsculo, até o acento agudo e o pingo do “i”. Tchaicowski foi meu primeiro compositor clássico. Quero dizer, o primeiro a quem dei atenção. E seu concerto número 1, para piano e orquestra, em si-bemol menor, opus 23, foi minha primeira sinfonia. Gente, esse piano do restaurante vai me fazer chorar de emoção. Sem sacanagem (que palavra!). Está lindo! E eu ainda não vi a cara do pianista. Somos assim mesmo: vemos o resultado e não nos preocupamos em ver quem, anonimamente, os produz. Viva a noite da digressão! Voltando ao rumo, folheava eu um caderno cultural de Salvador, quando soube da tal apresentação. Não vacilei, fui lá. O ingresso custou R$ 60,00, que me deixaram sem o dinheiro para o táxi do dia seguinte, para ir ao aeroporto. O motorista do táxi que me levou de volta do teatro ficou “penalizado” com minha situação e prometeu esperar que eu tirasse dinheiro no caixa eletrônico do aeroporto no dia seguinte para pagar as duas corridas. Foi assim: completamente diferente do meu modo quadrado de ser (Lineuzinho[1], diria minha família), decidi assistir à apresentação, para pensar nas conseqüências de ficar sem dinheiro somente depois. E não me arrependo. Sendo honesto, porque não dá para ser desonesto depois de falar e confessar tudo isso, eu me identifico mais com a música que com o ballet (ou balé?). É incrível como sou averso a aceitar aportuguesamentos. Voltando ao ballet, apesar da minha maior afinidade com a música, aquela união da suíte musical que eu conhecia com a dança que eu via era de uma harmonia que não vou me atrever a por no papel. Não por falsa modéstia, mas por saber que é impossível. Algumas finalizações formavam um visual que eram verdadeiras pinturas, que faziam a alma elevar-se, a respiração ficar presa por segundos ou frações deles e, então, sair num suspiro de assentimento. Concordância do que está lá com o que se passa aqui dentro. Quanta beleza! Nos dois cenários: o externo e o interno.
E num dado momento, minha consciência, que não dorme mesmo quando eu durmo, falou: “enquanto você vê essa beleza, nesse exato minuto, alguém perde a vida nas favelas, ou no Iraque, ou sabe-se lá onde.” Falou mais, a linguaruda: “os R$ 60,00 que você pagou para ver isso poderiam alimentar uma criança.”
Mas aquela beleza competia com minha consciência e me ajudou a encontrar outros argumentos, ou a usar outro prisma para ver tudo aquilo sem me aniquilar, sem me sentir culpado por estar feliz.
Inverti a catástrofe e pensei: “alguém está sendo morto num desses lugares, mas em compensação alguém está mostrando algo lindo no Teatro Castro Alves.” Na contramão da segunda colocação de minha atrevida e insone consciência, refleti: “Meus R$ 60,00 estão contribuindo para que uma equipe de teatro tenha emprego, auto-sustento e possa alimentar e dar vida digna a suas crianças.”
A peça acabou, voltei ao hotel e me dirigi ao restaurante. E ao som de belíssimo piano, ao sabor de um Malbec Finca La Linda argentino e de um filleto all aceto balsâmico, e com papéis esparramados pela mesa escrevendo essa crônica, acabei de curtir minha noite, observando-a com olhos de apreciar, de amar, de ser feliz sem medo.
Salvador, 02 de novembro de 2007.

[1] Personagem de A Grande Família, série de televisão, conhecido por ser um obstinado seguidor de normas e regras, funcionário público exemplar.

domingo, 23.novembro.2008 Publicado por | Outros contos ou crônicas | 1 Comentário

Para começar

“Os melhores momentos de nossas vidas, passamos planejando o que faremos quando chegar o futuro. Não percebemos que o futuro chega a cada momento e, de repente, o futuro já virou passado e a vida já passou”.

Isso é o que está escrito na contracapa do livro Entre Outras Coisas, que publiquei em 2004. É um livro despretencioso, no qual coloquei alguns pensamentos meus, na forma de contos e crônicas, entre outras coisas.
Eu o estou colocando aqui, na sessão de páginas. Na que tem o título Entre Outras Coisas você vai ver um pouco do que é o livro. foram colocados poucos capítulos até o momento. Sete de um total de vinte e nove.
Também vou colocar outros contos que não fizeram parte de nenhum livro e já com uma ligeira mudança de estilo.

domingo, 23.novembro.2008 Publicado por | Para Começar | Deixe um comentário

   

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