Álvaro Macedo

Para espairecer com literatura, músicas, dicas…

Sob Outro Olhar

Pessoal, esse não faz parte do Entre Outras Coisas. É uma crônica leve, da qual gostei muito. Retrata um momento bom que tive em Salvador / BA, no Teatro Castro Alves e no restaurante do hotel em que estava hospedado. Espero que curtam o texto como curti o momento. Um abraço.
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A consciência é uma maquininha danada que teima em não nos dar sossego. De certa forma isso é bom. É a nossa referência. Claro que alguns a têm numa dosagem muito modesta. Mas não vou me ater a fazer críticas dos outros. Vou pensar somente na minha, que não quero classificar como muito pequena, escondendo-me atrás da máscara de uma falsa modéstia, e nem como grande, porque tenho noção, mesmo que inexata, de posição. E sei que estoy lejo, mui lejo, do topo. Por que em espanhol? Sei lá. Saiu assim. Metidez talvez. Vinho, quem sabe? Estou fugindo do foco. Oh, maldita digressão que me afasta do objeto central! Oh, bendita digressão que me permite viajar por minha própria mente, descobrindo pequenas boas coisas escondidas em seus escaninhos.
Retomando o pé do que talvez não tenha pé nem cabeça, cá estou em Salvador, Bahia. Sorvo mais um gole do meu Malbec, Finca La Linda, argentino. Meu Deus, como estou metido! Não, acho que não é isso. Apenas estou curtindo! E muito! O que vim eu fazer nas terras de papai, nordestino que migrou e deu certo? E gerou um filho metido. Nem tanto, espero (refiro-me ao “metido”). Vim cumprir uma obrigação (que horror, parece desagradável!), uma missão (até parece que tenho estatura para ser missionário), seja lá o que for, vim a trabalho e acho que cumpri meu papel (que piano magnífico que ouço enquanto janto!). Aparentemente as pessoas gostaram. Não, não estou falando do piano, mas sim da minha palestra. O piano está lá, enriquecendo esse momento do meu jantar. E as pessoas devem estar gostando, como eu. Mas não falo dele. Oh, bendita digressão!
Cumprido meu papel, se é que ele tem fim e estará um dia cumprido, resolvi dar-me um tempo nessa noite (o papel foi cumprido durante o dia; ô mania de ficar explicando tudo o que não tem importância) e fui assistir, no Teatro Castro Alves, ao ballet O Quebra-nozes. Simplesmente fantástico! Com “F” maiúsculo. Aliás, tudo maiúsculo, até o acento agudo e o pingo do “i”. Tchaicowski foi meu primeiro compositor clássico. Quero dizer, o primeiro a quem dei atenção. E seu concerto número 1, para piano e orquestra, em si-bemol menor, opus 23, foi minha primeira sinfonia. Gente, esse piano do restaurante vai me fazer chorar de emoção. Sem sacanagem (que palavra!). Está lindo! E eu ainda não vi a cara do pianista. Somos assim mesmo: vemos o resultado e não nos preocupamos em ver quem, anonimamente, os produz. Viva a noite da digressão! Voltando ao rumo, folheava eu um caderno cultural de Salvador, quando soube da tal apresentação. Não vacilei, fui lá. O ingresso custou R$ 60,00, que me deixaram sem o dinheiro para o táxi do dia seguinte, para ir ao aeroporto. O motorista do táxi que me levou de volta do teatro ficou “penalizado” com minha situação e prometeu esperar que eu tirasse dinheiro no caixa eletrônico do aeroporto no dia seguinte para pagar as duas corridas. Foi assim: completamente diferente do meu modo quadrado de ser (Lineuzinho[1], diria minha família), decidi assistir à apresentação, para pensar nas conseqüências de ficar sem dinheiro somente depois. E não me arrependo. Sendo honesto, porque não dá para ser desonesto depois de falar e confessar tudo isso, eu me identifico mais com a música que com o ballet (ou balé?). É incrível como sou averso a aceitar aportuguesamentos. Voltando ao ballet, apesar da minha maior afinidade com a música, aquela união da suíte musical que eu conhecia com a dança que eu via era de uma harmonia que não vou me atrever a por no papel. Não por falsa modéstia, mas por saber que é impossível. Algumas finalizações formavam um visual que eram verdadeiras pinturas, que faziam a alma elevar-se, a respiração ficar presa por segundos ou frações deles e, então, sair num suspiro de assentimento. Concordância do que está lá com o que se passa aqui dentro. Quanta beleza! Nos dois cenários: o externo e o interno.
E num dado momento, minha consciência, que não dorme mesmo quando eu durmo, falou: “enquanto você vê essa beleza, nesse exato minuto, alguém perde a vida nas favelas, ou no Iraque, ou sabe-se lá onde.” Falou mais, a linguaruda: “os R$ 60,00 que você pagou para ver isso poderiam alimentar uma criança.”
Mas aquela beleza competia com minha consciência e me ajudou a encontrar outros argumentos, ou a usar outro prisma para ver tudo aquilo sem me aniquilar, sem me sentir culpado por estar feliz.
Inverti a catástrofe e pensei: “alguém está sendo morto num desses lugares, mas em compensação alguém está mostrando algo lindo no Teatro Castro Alves.” Na contramão da segunda colocação de minha atrevida e insone consciência, refleti: “Meus R$ 60,00 estão contribuindo para que uma equipe de teatro tenha emprego, auto-sustento e possa alimentar e dar vida digna a suas crianças.”
A peça acabou, voltei ao hotel e me dirigi ao restaurante. E ao som de belíssimo piano, ao sabor de um Malbec Finca La Linda argentino e de um filleto all aceto balsâmico, e com papéis esparramados pela mesa escrevendo essa crônica, acabei de curtir minha noite, observando-a com olhos de apreciar, de amar, de ser feliz sem medo.
Salvador, 02 de novembro de 2007.

[1] Personagem de A Grande Família, série de televisão, conhecido por ser um obstinado seguidor de normas e regras, funcionário público exemplar.

domingo, 23.novembro.2008 - Publicado por | Outros contos ou crônicas

1 Comentário »

  1. A consciencia é realmente algo incrivel ela não nos deixa tranquilos, se estamos indo contra aos nossos principios.

    Comentário por giselle | segunda-feira, 08.junho.2009 | Responder


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