Álvaro Macedo

Para espairecer com literatura, músicas, dicas…

O Pássaro de Prata

O Pássaro de Prata (1)

O que você vai ler, a seguir, aconteceu. Talvez não com essas pessoas. Talvez não nesse lugar. Talvez não dessa forma. Mas aconteceu.

Gradualmente mas ininterruptamente, suave mas peremptoriamente, a luz ia abocanhando a escuridão e um novo dia começava a nascer. Aifos tinha os olhos ressequidos da noite insone. Mais uma, da longa série que começara cerca de seis meses antes. Vira, outra vez, vultos andando pela ilha, em atitude de quem examina algo desconhecido. Não sabia o que era aquilo. Portavam nas mãos pequenos objetos que emitiam luz em intensidade adequada a suas tarefas localizadas. Objetos estranhos para Aifos e todo seu povo. Seu mundo era bom, com tudo que eles precisavam para alimentar-se, matar sua sede e bom até para andar. Os mais velhos conheciam-no todo, pois em uma vida era possível visitar todos seus recantos e ainda voltar para casa a fim de narrar suas experiências, de forma que o conhecimento era de domínio geral sobre todas as coisas que ali haviam. O mundo era bom. As pessoas é que careciam de maior maturidade social, pois em vários pontos ainda se encontravam no primitivismo das atitudes. A liderança, por exemplo, nem sempre era exercida por méritos maiores, mas sim pela força. Mas era o mundo que se tinha para viver. Não havia outros. Ao redor dele, só água. Não sabiam que a isso dava-se o nome de ilha. E nem podiam, pois não havia continente para eles ou a ilha era o seu continente. Os nomes são relativos. Além deles, apenas um pequeno ponto lá distante, no meio da água imensa. Uma pedra. Poderia ser outra ilha. Poderia ser maior. Mas a idéia de um outro mundo ou de um outro povo nunca fez parte de suas reflexões, que eram invariavelmente relativas às coisas do dia-a-dia, do seu chão, do seu céu, da sua água (e quanta água!). tinham suas crenças, é claro. Mas calcadas em suas experiências limitadas. E qual povo não é assim? Apenas mudam os limites.

— Aifos, meu filho, o que o incomoda?

O moço não havia notado que a manhã já chegara ao horário em que todos começavam a levantar-se e também não percebeu a aproximação do pai.

— Pai, tem alguma coisa estranha acontecendo.

— Que tipo de coisa?

— Tenho visto vultos andando pela noite, carregando pedaços de pau que clareiam, pegando pedaços de coisas do chão, das plantas, bichinhos e outras coisas e colocando em pequenos embornais transparentes. Não sei quem são, de onde vêm e para onde vão. Não chego perto porque não sei o que querem e o que podem me fazer.

— É estranho, mesmo, filho. De qual partilha (2) serão? E por que fariam isso de noite? E o que estão pegando.

Ficaram calados. O pai estava mais preocupado com a cabeça do filho do que com os fatos por ele narrados, pois julgava serem criações suas. O filho começava a se perguntar: “E se não forem do nosso mundo? Mas de que mundo seriam, então?”

— Vamos tomar café (3), filho. Depois a gente fala com o estatutor. Ele pode ter mais informação e falar com os outros estatutores, para evitarmos confusão futura.

Na verdade, o pai não falaria com ninguém. Não queria expor o filho e a família a situações embaraçosas. Disse aquilo apenas para tranqüilizar Aifos.

O dia transcorrera normalmente, a não ser pelo sono absurdo que aocmpanhava Aifos ao longo de suas tarefas. Na ilha, cada um tinha seu papel que não podia ser deixado para outro. Portanto, hora de dormir era à noite. Ele estava do outro lado do monte, tentando caçar um coelho quando sentiu bater uma claridade na mata. Olhou para cima e viu uma luz que o ofuscou. Era o reflexo do sol que batia em algo flutuante e iluminava a mata. O objeto foi descendo e assentou-se numa clareira. Aifos não sabia o que era coração, mas o seu estava quase a lhe sair pela boca. Aquilo era estonteante, deslumbrante e ele estava paralisado, atônito, quase catatônico. Depois de assentado, de dentro do objeto e através de uma porta que se abriu suavemente, começaram a sair pessoas que não eram muito diferentes dele, a não ser pelas roupas, quantidade de pelos, comprimento de cabelos e outros pequenos detalhes. Mas todos com dois olhos, um nariz, uma boca, dois braços, duas pernas, duas orelhas e assim por diante. Aifos pensou no que diria a seu povo. Dizer o quê se nem ele tinha certeza do que estava vendo? Seria o sono? Saindo ligeiramente do torpor, mexeu um pé e provocou um estalido que chamou a atenção dos estranhos. Deveria correr? Não conseguiria. Ficar parado? E se isso significasse a morte? E se tudo fosse apenas um sonho? Que tal acordar? Mas não sabia se era sonho. Com os sinais elétricos trombando em todas suas esquinas neurais da cabeça, ele não notou a aproximação pelo lado, de um dos seres.

— Zap ed oãssim me somatse, ogima ôla.

— Que, que, quem sã, são vocês?

— Racinumoc son someredop ogol. Ahli an somartnocne euq socifárg sianis snugla ed oditnes od somaifnocsed éta e sodad odnehloc somatse sam, augníl aus somalaf oãn adnia etnemzilefni.

Aifos não emitiu mais nenhuma palavra. Aquilo não podia estar acontecendo. O ser sorriu e isso Aifos entendeu. Talvez pelo imprevisto de ter encontrado um nativo e com receio de que isso pudesse causar algum alarde, a equipe dos seres voltou rapidamente para sua nave e retirou-se (espaçonave, aeronave, que importa se Aifos não sabe o que é nave?). A subida, tanto quanto havia sido a descida, foi outra experiência assustadora para ele, devido ao ar quente saído dos propulsores verticais e a conseqüente poeira levantada para todos os lados.

Naquela noite, ele não dormiu um segundo. Nem na próxima e na que se seguiu a essa. Mas no quarto dia, após a refeição do meio dia, ele encostou-se para  descansar e dormiu dois dias e duas noites ininterruptas. O assombro era geral. Isso nunca havia acontecido antes. Tentavam, inutilmente, despertá-lo, mas nada. Era um sono agitado, com delírios, palavras ininteligíveis, frases desconexas, sudorese geral. Então Aifos acordou. Estava só na casa, deitado na cama, onde o colocaram no primeiro dia. Ouviu os pássaros cantando sem muito alarde e adivinhou que era final de tarde. Logo os homens voltariam de seus afazeres no campo, nas oficinas. Sua mãe, que voltava da fonte de água doce, entrou e viu-o sentado.

— Meu filho, o que aconteceu com você esses dias todos? Como você está?

— Estou bem, mamãe. Eu andava com dificuldade para dormir e quando apaguei foi de uma vez.

— O anátomo (4) veio vê-lo, mas não descobriu nada. Mandou lhe dar uns chás, mas como fazer você engolir dormindo?

— Fique tranqüila, mamãe. Estou bem.

Aifos foi para o quintal, olhou para o mundo (seu mundo). Lembrou-se do ocorrido dias atrás e ainda tinha dúvidas sobre a realidade dos fatos. Principalmente agora que ficara fora do ar por dois dias. Tudo assemelhava-se mais a uma memória quimérica distante, ou a um sonho, que ele não sabia se era bom ou ruim. A idéia de um outro mundo era maravilhosa, mas tirava-o do seu sossego confortável. Na verdade, ele não pensava exatamente em outro mundo. Esse era um conceito abstrato dentro da bagagem cultural do seu povo. Ele simplesmente pensava em algo diferente do que conhecia e não sabia o que era. Pior: ainda não estava certo se era real ou se fazia parte do delírio dos dois dias. Resolveu caminhar pelas redondezas, espairecer. Enquanto o fazia, apanhou uma fruta numa árvore próxima e foi matando a pouca fome que estava sentindo. Deveria ser maior, mas seu cérebro estava anestesiando o estômago. A fruta deu-lhe a sensação agradável de uma necessidade atendida. Observou tudo com olhos diferentes. Todas as coisas sempre estiveram ali e ele não percebera, mas agora notava, prestava atenção, apalpava, cheirava. Vivia. Quando voltou para casa, uma hora depois, foi recebido com alegria e alívio pelo pai que o abraçou fortemente.

Dois dias passaram-se sem qualquer novidade. Aifos quase começara a esquecer o que vira. Começava a achar que tinha sido realmente um delírio. Somente depois desse tempo resolveu voltar ao local que poderia ter sido o do encontro. Não havia nada de muito diferente. A chuva freqüente fazia a grama crescer rapidamente e esconder vestígios. Chegou mais perto da clareira e só aí ficou intrigado, mas sem certeza. Havia algumas depressões do que poderia ter sido o apoio da nave. Mas ele não tinha visão técnica ou vivência tecnológica para esse tipo de avaliação. Olhou mais atentamente e, mesmo sem a tal visão especializada, notou a regularidade da distribuição das depressões. Foi quando notou um bastonete caído. Chegou-se perto e viu que não era nada conhecido no seu mundo. Foi quando teve certeza de que não vivera um sonho. Seu coração começou a bater acelerado. De novo a incerteza de procurar ou não alguém para ajudá-lo a entender aquelas coisas. Mas que pensariam dele? Pelo menos agora tinha algo que provaria que aquilo tudo não era fruto de uma mente desequilibrada. E o melhor era poder provar isso para ele mesmo.

— Amigo!

Aifos estremeceu porque reconheceu o timbre de voz e sabia com que se depararia na hora em que se voltasse. Virou-se e lá estava ele. Um ser semelhante ao que vira no outro dia. De fato, achava que era o mesmo. Será que ele fala como nós?

— Aid ortuo od otsus olep eplucsed.

Não, não falava. Mas já descobrira uma palavra e, pelo jeito amistoso de suas expressões, sabia e desejava manifestar o significado.

O estranho apontou para a pedra que ficava distante no meio das águas e falou outro tanto de coisas que Aifos não entendia. E gesticulava para o ar, traçando formas invisíveis, desenhando rotas, apontava para o céu, para as águas. Nada que ele pudesse decifrar, mas entendia que ele queria explicar alguma coisa. Apontou de novo para cima e disse:

— Céu.

— Céu, repetiu Aifos.

Era o primeiro diálogo. Grande avanço por vir, que começava numa minúscula semente. Como tudo.

Apontou para a pedra lá distante e falou:

— Otatera.

Como um papagaio, Aifos repetiu a palavra, dessa vez sem a mínima idéia do que significava. Tímida e intuitivamente, apontou para si próprio e disse:

— Aifos.

O estranho entendeu ou achou que entendeu e, fazendo o mesmo gesto para si:

— Apopeu.

Fantástico! Primeiro diálogo e já com identificação e boa vontade. Parece até que nascia ali a OIU – Organização das Ilhas Unidas. O coração de Aifos dava pulos, mas agora não era de medo. Era de alegria. Havia algo, alguém, além. Começava a entender que a pedra era o lugar de onde Apopeu vinha. Seria outro mundo? Ou mundo era só o dele mesmo e a pedra seria um lugar especial, onde viviam seres especiais que podiam deslocar-se no ar como os pássaros? Que conhecimento novo formidável! E porque era bom, Aifos queria dividi-lo com os seus. Mas estaria na hora? Bem, havia o bastonete. Porém, quem não quer acreditar duvida até da pedra que lhe dilacera a testa. “Otatera”, pensou.

Sorrindo, Apopeu falou:

— Amigo, ieratlov ue. Vendo o bastonete no chão, pegou-o e passou-o a Aifos. Anretnal ahnim moc euqif. E afastou-se para dentro da mata.

Os meses seguiram-se sem que Aifos tomasse a decisão de contar não somente os primeiros fatos a seu povo, mas também os que se seguiram e começaram a constituir-se quase uma rotina. As visitas foram mais freqüentes. Era sempre Apopeu o contato mais imediato, embora tenha apresentado outros. A comunicação avançara e ele já conseguia descrever objetos, tecnologias e metodologias. Aos poucos associava-lhes nomes: lâmpadas, telefone, fogão, lanterna, geladeira, etc. E um belo dia, quando não cabiam mais surpresas, convidou Aifos a passear na nave. Ele relutou, mas sem muita convicção, pois isso já fazia parte de seus desejos mais íntimos. Ademais, não sentia mais qualquer receio em relação ao povo de Apopeu, que via até como superiores destinados a protegê-los. Talvez fossem, inclusive, os deuses de que seu povo tanto falava e a quem tanto se apegava. Acabou por aceitar e entrou naquele objeto estranho, mas com aparência interior muito agradável a seus olhos. Era como uma criança diante de um brinquedo muito atraente cuja utilidade ainda ignora.

A porta fechou-se, os motores, pouco depois foram ligados e uma leve vibração fez-se sentir. Ela foi aumentando à medida que o zumbido que ouviam também se ampliava e começaram a subir, subir e subir.

Aifos viu seu mundo ficar pequeno à medida que subiam. Depois a nave afastou um pouco da ilha e, maravilhado e incrédulo, ele foi vendo que a pedra no meio da água era maior do que pensava. Mais distante, muito mais distante viu um vulto escuro que parecia outra terra enorme. “Outra terra, Otatera”, pensou. Agora entendeu. Mas terra de quem? Dos deuses. A nave fez uma rápida volta sobre a ilha de Apopeu e começou a retornar. Após deixá-lo em terra, recomendou-lhe:

— Aifos, tudo o que você tem visto não tem sido à toa. Você é o eleito, o mensageiro de seu povo. A você cabe a missão de mostrar-lhes que uma nova era está chegando. Que trazemos avanços para sua vida, não só material, mas também algo maior.

A nave afastou-se e Aifos ficou mais, muito mais aturdido que no primeiro contato na floresta. Eleito, mensageiro, missão, nova era. Essas palavras ecoavam, reverberavam, ribombavam dentro de sua cabeça. Tinha motivo para ficar não mais só três dias, porém um ano, sem dormir. Era muito para uma pessoa só. Não se sentia nada diferente, menos ainda melhor, para ter que arcar com aquela responsabilidade. Mas na verdade, havia sido escolhido pelos estranhos. Eles tinham métodos que permitiam selecioná-lo. Talvez não numa busca ostensiva, mas o mais apto do grupo que avaliaram em segredo. Ele não sabia disso e nem chegou a pensar nessa hipótese.

Duas semanas passaram-se sem que Aifos conseguisse imaginar um plano amplo para sua tarefa. Até que decidiu começar por seus pais. Narrou-lhes tudo, desde as primeiras observações de pessoas vasculhando a ilha, até o primeiro encontro e culminou com o contato mais recente. Fazia um esforço enorme para fazer-se entender. Buscava palavras, tentava exemplificar, exaltava-se. Estava excitadíssimo, o que foi tomado pelos pais como estado de alucinação, desequilíbrio. Fingiam que acreditavam, concordavam com algumas de suas colocações. Procuravam não contrariá-lo e ele acabou por notar essa atitude. Abreviou o fim da conversa, pediu licença e foi para o terreno ver o luar. Teve, com seus pais, um modelo reduzido da dificuldade que encontraria pela frente.

A cada três meses, aproximadamente, a comunidade reunia-se para discutirem seus problemas e buscarem soluções em conjunto. A próxima reunião seria na semana seguinte. Aifos decidiu que exporia os fatos a todos. Teria que ser mais convincente do que fora com os pais. Estes estavam preocupados que as pessoas soubessem que seu filho enfrentava problemas de ordem mental ou emocional. Mas ele não lhes falara da sua idéia para a reunião.

No dia marcado, o galpão de toras e sapés estava lotado. Era rústico, mas muito forte e à prova de chuva. As portas eram apenas aberturas não muito amplas, nem pequenas, sem folhas para fechá-las, pois não havia o que roubar e a cobiça não fazia parte dos defeitos daquelas pessoas.  Suas expectativas de posse eram apenas relativas a suas necessidades básicas do dia-a-dia. Era uma espécie de teatro de arena com arquibancadas cercando um círculo no qual colocava-se o estatutor e a pessoa ou as pessoas que expunham suas dúvidas ou demandas.

Aifos esperou que todos falassem, primeiramente em respeito, segundo porque o coração estava quase saindo pela boca de tanto medo pelo que estava por vir. Quando o estatutor perguntou pela última vez se mais alguém queria falar, ele levantou a mão e foi chamado ao centro.

— Amigos, não trago nenhum problema e nenhum pedido. Quero apenas contar umas coisas que aconteceram comigo e que vão ser muito importantes para todos nós.

E começou a narrar como fizera para os pais, mas procurou usar simbolismos, desenhos riscados no chão, apelou para objetos que trouxera de casa e que pudessem auxiliá-lo na explanação. Por algum tempo, o silêncio foi total, misturado com um certo receio ou superstição. Mas quando chegou no primeiro contato, em que vira a nave pela primeira vez, a platéia começou a ficar incrédula. O silêncio foi substituído por resmungos, comentários paralelos e transformando-se em ruído. Aifos, agora, tinha dificuldade em falar, mas não desistia porque julgava aquilo importante. Quando chegou, porém, à sua viagem com os estranhos, a turba enfureceu-se:

— Anton, o que está acontecendo com seu filho? Perdeu o respeito por essa reunião, acha que somos idiotas ou perdeu o juízo? Tire-o daí antes que percamos a paciência e o coloquemos em seu devido lugar.

Aifos não esperou a intervenção do pai. Retirou-se da arena e foi embora consternado. Só quando estava longe lembrou da lanterna. “Como fui esquecer de levar a lanterna? Mas será que teria adiantado?”

Os comentários sobre o ocorrido na reunião correram de boca em boca e eram o assunto do momento. Até que chegaram aos ouvidos de Andreus, que não estava na assembléia daquela dia.

— Esperem aí. Eu vi o dia em que desceu um pássaro de prata que pegou alguém e foi embora. Depois de algumas horas, vi algo se aproximando, vindo do céu, era ele de novo, trazendo alguém.

A informação coincidia com a narrativa de Aifos e o assunto passou a ser considerado sob outro prisma. Ele passou a ser respeitado. Não entendia porquê. De novo, alguém via algo de especial nele, diferentemente de sua auto-avaliação. Começaram a bombardeá-lo com perguntas, mas ele só podia contar o que vira, os fatos, os objetos, os seres. Não possuía nenhuma opinião formada sobre aquilo tudo. E não conseguia transmitir as sensações que tivera naqueles encontros, mas apenas o que era palpável.

Observando toda aquela situação meio fora de cena, Trinus, o intelectual da comunidade, começava a construir hipóteses a respeito das ocorrências, da origem dos seres comunicantes e do destino daquele povo. Primeiro, não gostava de que alguém estivesse em destaque maior que ele. Segundo, porque, diferentemente da maioria, era ambicioso em termos de status e enxergava na situação uma possibilidade de ascenção maior, no respeito de seus concidadãos (ou compartilhâneos). E foi a partir da simples observação atenta de tudo o que o Aifos falara e do clima reinante, associados à sua grande criatividade, que Trinus elaborou uma teoria mirabolante da origem de seu povo e do seu futuro, agora que os deuses haviam se manifestado. Conclamou um reunião extraordinária da comunidade, onde apresentou suas idéias, nas quais ele se deixava entrever, subrepticiamente, como um elemento imprescindível na continuação do contato com os deuses. Aos poucos, deu vulto a essa idéia e foi apagando a figura de Aifos. Este não fazia questão de destaque, mas percebia que Trinus não estava agindo fiel a nada, a não ser à sua própria criação, complexa mas não condizente com a realidade.

— Trinus, não queria contrariar você, mas o que está dizendo é muito diferente do que eu vi. Aliás, nada me foi mostrado ainda. Apenas conheci aqueles seres.

— Deuses.

— Você é quem diz. Eles não falaram isso.

— Nem falariam. Outra coisa. Esse negócio de você ser o eleito, deve referir-se apenas aos fatos iniciais. Como você faria isso se não é capaz de interpretar os fatos, de criar modelos, teorias? Só quem é capaz disso é que está à altura de tamanha missão.

Aifos ficou embaraçado com a argumentação e pensou se não seria melhor retirar-se de cena. Seria mais cômodo, pelo menos. Cuidar da sua vidinha e não do que poderia ser o futuro de todo um povo. E Trinus estava morrendo de vontade de fazer isso. Por que não deixar para ele?

— Porque ele não tem propósitos, foi o que lhe disse Apopeu, no novo encontro que tiveram. A não ser pensar só nele mesmo.

— Mas o povo acredita mais no que ele diz do que em mim. Eu lhes dei só fatos, sem interpretação. Ele lhes deu regras.

— Que o levam a ele, não a um futuro melhor. Você não pode conformar-se com isso. Não pode se acomodar. Senão, será igual a ele. Pensando apenas no próprio conforto.

Aquilo atingia Aifos como um raio. O conflito, ao invés de diluir-se, ganhava volume dentro dele. O “eu” e o “nós” digladiando-se, tentando mostrar quem é mais importante.

— Pense bem, no que deseja para si e para seu povo.

Ele não sabia o que desejar. Ou melhor, sabia. Queria sossego para os dois. O que não sabia era qual o caminho para conseguir isso. O que sabia menos ainda, embora desconfiasse, é que entrara num caminho irreversível, no qual não haveria mais espaço para o sossego. O que também não sabia é que as mudanças ocorrem somente a custo de energia aplicada, alteração de hábitos, substituição de idéias, troca do velho pelo novo. Enfim, fuga deliberada da zona de conforto.

— Pense, reflita e decida. Nós estaremos do seu lado. Não estaremos nunca do lado dele, pelo menos enquanto ele pensar e agir dessa forma.

Aifos estava em dúvida se tentava dialogar com Trinus para convencê-lo de seu erro ou se alertava o povo para essa situação. Se Apopeu estivesse certo, não haveria como convencer Trinus, pois ele não estava movido pela lógica, mas pelo próprio interesse. Achou que o melhor seria abordar os demais nativos, mas percebeu que a teoria elaborada por Trinus estava completamente impregnada pelos detalhes cotidianos bem como as crenças seculares da tribo e, portanto, mais assimiláveis. Estavam mais distantes do medo de enfrentar o diferente, o transcendental. Mesmo assim, insistiu e foi rechaçado. Trinus pouco precisou fazer ou induzir para que o povo considerasse Aifos uma ameaça à existência pacífica da comunidade. Seus olhares para com ele eram sombrios alguns, hostis outros.

— Siga esses homens, Aifos.

O estatutor estava em seu caminho quando ele voltava para casa.

— Por que eles estão armados? Para onde iremos.

— Simplesmente, siga-os.

22 a 27 de outubro de 2005.

 


(1) Conto baseado na alegoria ilustrativa da diferença entre religiosidade e religião, apresentada em “Carl Gustav Jung e os Fenômenos Psíquicos”, de Carlos Antônio Fragoso Guimarães.

(2) A ilha era dividida politicamente em 12 partes que chamavam partilhas, cada qual seu com líder a quem chamavam de estatutor.

(3) Algumas equivalências de expressões e mesmo de hábitos são feitas nos diálogos.

 (4) Pessoa conhecedora dos assuntos ligados à saúde, na ilha.

domingo, 28.dezembro.2008 Publicado por | Outros contos ou crônicas | Deixe um comentário

   

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