Beija-Flor e Arapuá
A arapuá é uma abelha sem ferrão, mas nem por isso deixa de ser incômoda para quem quer alimentar os beija-flores com bebedouros. Elas infestam o bebedouro e algumas vezes os pássaros o rodeiam mas desistem. As recomendações que já vi de se colocarem recipientes com água açucarada próximos não surtiram o efeito que eu esperava. Algumas poucas abelhas iam para esses recipientes e várias cercavam o bebedouro. Cheguei a colocar
a mesma solução que utilizava para os pássaros e isso também foi de pouca eficiência. Influenciado pela idéia do cone sobre o bebedouro para repelir formigas com óleo e que é visto na foto ao lado, tive uma outra que pus em prática e parece ter sido eficiente. Essa não é uma conclusão científica, uma vez que a amostragem, o número de repetições e a metodologia não atendem a parâmetros científicos e estatisticos. Mas como as abelhas que aqui surgiram não entendem nada de ciência, está funcionando e vou passar as informações para serem testadas por mais gente.
Primeiramente, esteja munido de um ou mais cotonetes (em geral, um basta para uma única operação), vaselina líquida e um recipiente auxiliar (usei uma xícara). O recipiente auxiliar é para evitar de colocar o cotonete dentro do frasco de vaselina e sujá-lo. Coloque uma pequena quantidade de vaselina no recipiente auxiliar, suficiente para uma operação. Depois de devidamente lavado o bebedouro, umedeça o cotonete na vaselina do recipiente auxiliar e passe nas pétalas das flores do bebedouro. Uma umedecida de cotonete é a quantidade adequ
ada para uma flor completa, inclusive para os estames. Após umedecer a flor, Faça o mesmo para os respectivos estames, sem molhar novamente o cotonete, a fim de evitar excesso no centro da flor, o que poderá ser desagradável para os beija-flores. Repita a operação para as demais flores. Para as pétalas, oriente-se pela foto ao lado e para os estames para a foto abaixo. Tenha cuidado para não passar o cotonete no centro da flor, por onde o beija-flor acessa o líquido.![]()
Aproveitando, vamos falar das formigas, para as quais já existem procedimentos bem conhecidos, inclusive nas embalagens dos bebedouros. A alternativa que vem na embalagem é encher o cone sobre o bebedouro de óleo. Eu prefiro passar graxa no arame e prego que eu uso para dependurar o bebedouro, conforme se vê na foto abaixo. Nada contra o método do cone, para o qual ele foi feito, por sinal, mas com a graxa, na hora da manutenção, basta retirar o bebedour
o do arame. No uso do óeo, o inconveniente é o fato de ser um item a mais para fazer manutenção e mais um resíduo que que se tem que descartar (o óleo sujo).
Agora um bichinho que eu não consegui dar jeito, foi a cambacica. É um pássaro pequeno, que parece uma miniatura de bem-te-vi e possui outros nomes regionais como caga-sebo e sebinho. Abaixo, vê-se a cambacica, em foto de Flávio Cruvinel Brandão. A página de onde foi baixada essa foto possui mais algumas informações sobre esse belo pássaro. Ele não chega a causar grandes transtornos. Apenas consome um pouco do líquido e aumenta a despesa. Mas até vale a pena, pela sua beleza. Veja-o em Página da Cambacica, de Flávio Cruvinel Brandão.
Outra coisa que me motivou buscar solução para as abelhas foi o fato de que o potinho que eu colocava com água e açúcar para elas estava se transformando numa fonte de extermínio, pois elas se afogavam. Coloquei pequenas rodelas de rolha, para servir de bóia, mas mesmo assim algumas morriam. Então parti para a solução acima e para não deixá-las sem qualquer fonte de açúcar, deixei os potinhos, mas ao invés de líquido fiz um melaço de açúcar e água apenas para umedecer.
O Velho Nestor
Sem pressa, os primeiros raios de sol começaram a devorar a escuridão. Lentamente, um novo dia começava a amanhecer. A grama ainda estava molhada da chuva que caíra durante a noite.
Nestor olhou à sua volta, preguiçosamente. Trazia o corpo molhado. Mais uma noite ao relento. Mais uma noite pouco dormida, escutando os pequenos sons, que se destacavam no silêncio dominante, como uma sinfonia desconexa. Notou um pouco adiante, o recipiente familiar com indícios de que houvera alimento ali, que o manteria vivo por mais um dia. Muitos apiedavam-se dele. Outros achavam aquilo natural. Ele não pensava no assunto. Nem sabia o que era pensar. Apenas vivia.
Olhou para um lado, para o outro. Ninguém. Examinou sua aparência sem nenhuma crítica e deitou a cabeça sobre uma pedra adjacente. Ia ficar mais um pouco ali, quieto. Levantar-se já para quê? O vazio de mais um dia preencheria suas infindáveis horas ociosas. Serenamente, suas pálpebras foram se fechando e ele adormeceu novamente. E sonhou. Pois é acreditem. Nestor sonhou.
Via-se num espaço muito amplo, bonito, com extenso gramado, ao lado de um grande lago, num tempo passado. Seria sua infância? Tinha muita energia, corria com muito vigor. Todos o tratavam com muito carinho. Sorriam para ele, pegavam-no ao colo, afagavam e, a seguir, colocavam-no no chão, para que continuasse a correr, a brincar. Que alegria! De repente, viu ao longe uma toalha estendida na relva, com várias guloseimas cuidadosamente arrumadas sobre ela. As pessoas que estavam por perto conversavam distraidamente, apanhando o restante do material do piquenique. Na sua inocência e incontinência infantis, Nestor correu para cima daquele mundo maravilhoso e foi uma festa! Enquanto não foi notado. Mas alguém percebeu e deu o alerta. Foi um Deus nos acuda. De repente, todo mundo veio para cima de Nestor, com ares de poucos amigos e ele tentou correr, mas suas pernas de chumbo prendiam-no ao solo.
No esforço desesperado de escapar, Nestor acordou assustado. Tentou por-se de pé num salto, mas seu corpo velho, com músculos pouco vigorosos e algumas artrites impiedosas, pediu para que ele tivesse calma O coração fraco batia forte. Levantou-se com dificuldade, caminhou penosamente e observou a rua. Alguns automóveis e ônibus começavam a passar com seus ocupantes ainda sisudos, pela sonolência mal resolvida. Pessoas caminhavam apressadas, com seus pães e leite, ou sem eles. É, o dia começava a pulsar. Mas Nestor não estava interessado nesse pulso. Viu um jornal caído ao chão, o que também não lhe causou nenhum interesse. No passado, tê-lo-ia devorado de ponta a ponta, para irritação de muita gente. Agora, só a indiferença.
O pior de tudo, era a inconsciência da situação. Ou seria um alento, não saber da simplicidade e inconsistência de sua vida?
Passo a passo, cada um vindo estudadamente após o outro, Nestor voltou para seu cantinho. Alguém tinha até escrito uma tabuleta: “Cantinho do nestor”. Sentou-se e ficou com aquele olhar de quem analisa profundamente o nada. Aos poucos foi se acomodando de novo ao solo. E não é que o sono estava vindo outra vez! Que droga! De uns muitos anos para cá, parece que só isso preenchia sua vida: sono, sono, sono. Que falta de perspectiva! Perspectiva? O que é isso? Que importa?
Antes que dormisse de novo, alguém chamou:
— Nestor, Nestor.
Levantou rapidamente a cabeça. Ainda tinha energia pelo menos para erguê-la com agilidade. Pôs-se de pé e caminhou lento, mas cheio de alegria, abanando o rabo para seu dono.
— Ô, Nestor, meu velho. Dormiu fora da casinha de novo, não é?
Ainda havia momentos de muita felicidade na vida daquele velho cão, de quem a família tolerava todas as caduquices, em respeito a sua idade.
3o lugar no Festival Cidadania e Arte da Embrapa, 2005.