O Velho Nestor
Sem pressa, os primeiros raios de sol começaram a devorar a escuridão. Lentamente, um novo dia começava a amanhecer. A grama ainda estava molhada da chuva que caíra durante a noite.
Nestor olhou à sua volta, preguiçosamente. Trazia o corpo molhado. Mais uma noite ao relento. Mais uma noite pouco dormida, escutando os pequenos sons, que se destacavam no silêncio dominante, como uma sinfonia desconexa. Notou um pouco adiante, o recipiente familiar com indícios de que houvera alimento ali, que o manteria vivo por mais um dia. Muitos apiedavam-se dele. Outros achavam aquilo natural. Ele não pensava no assunto. Nem sabia o que era pensar. Apenas vivia.
Olhou para um lado, para o outro. Ninguém. Examinou sua aparência sem nenhuma crítica e deitou a cabeça sobre uma pedra adjacente. Ia ficar mais um pouco ali, quieto. Levantar-se já para quê? O vazio de mais um dia preencheria suas infindáveis horas ociosas. Serenamente, suas pálpebras foram se fechando e ele adormeceu novamente. E sonhou. Pois é acreditem. Nestor sonhou.
Via-se num espaço muito amplo, bonito, com extenso gramado, ao lado de um grande lago, num tempo passado. Seria sua infância? Tinha muita energia, corria com muito vigor. Todos o tratavam com muito carinho. Sorriam para ele, pegavam-no ao colo, afagavam e, a seguir, colocavam-no no chão, para que continuasse a correr, a brincar. Que alegria! De repente, viu ao longe uma toalha estendida na relva, com várias guloseimas cuidadosamente arrumadas sobre ela. As pessoas que estavam por perto conversavam distraidamente, apanhando o restante do material do piquenique. Na sua inocência e incontinência infantis, Nestor correu para cima daquele mundo maravilhoso e foi uma festa! Enquanto não foi notado. Mas alguém percebeu e deu o alerta. Foi um Deus nos acuda. De repente, todo mundo veio para cima de Nestor, com ares de poucos amigos e ele tentou correr, mas suas pernas de chumbo prendiam-no ao solo.
No esforço desesperado de escapar, Nestor acordou assustado. Tentou por-se de pé num salto, mas seu corpo velho, com músculos pouco vigorosos e algumas artrites impiedosas, pediu para que ele tivesse calma O coração fraco batia forte. Levantou-se com dificuldade, caminhou penosamente e observou a rua. Alguns automóveis e ônibus começavam a passar com seus ocupantes ainda sisudos, pela sonolência mal resolvida. Pessoas caminhavam apressadas, com seus pães e leite, ou sem eles. É, o dia começava a pulsar. Mas Nestor não estava interessado nesse pulso. Viu um jornal caído ao chão, o que também não lhe causou nenhum interesse. No passado, tê-lo-ia devorado de ponta a ponta, para irritação de muita gente. Agora, só a indiferença.
O pior de tudo, era a inconsciência da situação. Ou seria um alento, não saber da simplicidade e inconsistência de sua vida?
Passo a passo, cada um vindo estudadamente após o outro, Nestor voltou para seu cantinho. Alguém tinha até escrito uma tabuleta: “Cantinho do nestor”. Sentou-se e ficou com aquele olhar de quem analisa profundamente o nada. Aos poucos foi se acomodando de novo ao solo. E não é que o sono estava vindo outra vez! Que droga! De uns muitos anos para cá, parece que só isso preenchia sua vida: sono, sono, sono. Que falta de perspectiva! Perspectiva? O que é isso? Que importa?
Antes que dormisse de novo, alguém chamou:
— Nestor, Nestor.
Levantou rapidamente a cabeça. Ainda tinha energia pelo menos para erguê-la com agilidade. Pôs-se de pé e caminhou lento, mas cheio de alegria, abanando o rabo para seu dono.
— Ô, Nestor, meu velho. Dormiu fora da casinha de novo, não é?
Ainda havia momentos de muita felicidade na vida daquele velho cão, de quem a família tolerava todas as caduquices, em respeito a sua idade.
3o lugar no Festival Cidadania e Arte da Embrapa, 2005.