Álvaro Macedo

Para espairecer com literatura, músicas, dicas…

O Velho Nestor

Sem pressa, os primeiros raios de sol começaram a devorar a escuridão. Lentamente, um novo dia começava a amanhecer. A grama ainda estava molhada da chuva que caíra durante a noite.

Nestor olhou à sua volta, preguiçosamente. Trazia o corpo molhado. Mais uma noite ao relento. Mais uma noite pouco dormida, escutando os pequenos sons, que se destacavam no silêncio dominante, como uma sinfonia desconexa. Notou um pouco adiante, o recipiente familiar com indícios de que houvera alimento ali, que o manteria vivo por mais um dia. Muitos apiedavam-se dele. Outros achavam aquilo natural. Ele não pensava no assunto. Nem sabia o que era pensar. Apenas vivia.

Olhou para um lado, para o outro. Ninguém. Examinou sua aparência sem nenhuma crítica e deitou a cabeça sobre uma pedra adjacente. Ia ficar mais um pouco ali, quieto. Levantar-se já para quê? O vazio de mais um dia preencheria suas infindáveis horas ociosas. Serenamente, suas pálpebras foram se fechando e ele adormeceu novamente. E sonhou. Pois é acreditem. Nestor sonhou.

Via-se num espaço muito amplo, bonito, com extenso gramado, ao lado de um grande lago, num tempo passado. Seria sua infância? Tinha muita energia, corria com muito vigor. Todos o tratavam com muito carinho. Sorriam para ele, pegavam-no ao colo, afagavam e, a seguir, colocavam-no no chão, para que continuasse a correr, a brincar. Que alegria! De repente, viu ao longe uma toalha estendida na relva, com várias guloseimas cuidadosamente arrumadas sobre ela. As pessoas que estavam por perto conversavam distraidamente, apanhando o restante do material do piquenique. Na sua inocência e incontinência infantis, Nestor correu para cima daquele mundo maravilhoso e foi uma festa! Enquanto não foi notado. Mas alguém percebeu e deu o alerta. Foi um Deus nos acuda. De repente, todo mundo veio para cima de Nestor, com ares de poucos amigos e ele tentou correr, mas suas pernas de chumbo prendiam-no ao solo.

No esforço desesperado de escapar, Nestor acordou assustado. Tentou por-se de pé num salto, mas seu corpo velho, com músculos pouco vigorosos e algumas artrites impiedosas, pediu para que ele tivesse calma O coração fraco batia forte. Levantou-se com dificuldade, caminhou penosamente e observou a rua. Alguns automóveis e ônibus começavam a passar com seus ocupantes ainda sisudos, pela sonolência mal resolvida. Pessoas caminhavam apressadas, com seus pães e leite, ou sem eles. É, o dia começava a pulsar. Mas Nestor não estava interessado nesse pulso. Viu um jornal caído ao chão, o que também não lhe causou nenhum interesse. No passado, tê-lo-ia devorado de ponta a ponta, para irritação de muita gente. Agora, só a indiferença.

O pior de tudo, era a inconsciência da situação. Ou seria um alento, não saber da simplicidade e inconsistência de sua vida?

Passo a passo, cada um vindo estudadamente após o outro, Nestor voltou para seu cantinho. Alguém tinha até escrito uma tabuleta: “Cantinho do nestor”. Sentou-se e ficou com aquele olhar de quem analisa profundamente o nada. Aos poucos foi se acomodando de novo ao solo. E não é que o sono estava vindo outra vez! Que droga! De uns muitos anos para cá, parece que só isso preenchia sua vida: sono, sono, sono. Que falta de perspectiva! Perspectiva? O que é isso? Que importa?

Antes que dormisse de novo, alguém chamou:

— Nestor, Nestor.

Levantou rapidamente a cabeça. Ainda tinha energia pelo menos para erguê-la com agilidade. Pôs-se de pé e caminhou lento, mas cheio de alegria, abanando o rabo para seu dono.

— Ô, Nestor, meu velho. Dormiu fora da casinha de novo, não é?

Ainda havia momentos de muita felicidade na vida daquele velho cão, de quem a família tolerava todas as caduquices, em respeito a sua idade.

3o lugar no Festival Cidadania e Arte da Embrapa, 2005. 

sábado, 21.fevereiro.2009 - Publicado por | Outros contos ou crônicas, Uncategorized

2 Comentários »

  1. amei este conto, principalmente por seu final surpreendente, uma vez quenos pega de surpresa, pois nunca imaginaria que o Nestor era um cachorro e não um morador de rua.

    Comentário por giselle | segunda-feira, 08.junho.2009 | Responder

    • Giselle, obrigado por seus dois comentários (Nestor e Olhar). O Nestor existe. É o cão de um vizinho e está mais velho ainda do que à época do conto. É um pastor que, dada a idade, está estremamente manso, com um latido rouco e baixo e, coitado, quando fica nervoso, se um cão pequeno o incomoda, por exemplo, ele perde a coordenação das patas traseiras e arreia. Coitado. Um abraço.

      Comentário por alvaromacedo | terça-feira, 09.junho.2009 | Responder


Deixe uma resposta

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

WordPress.com Logo

You are commenting using your WordPress.com account. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

You are commenting using your Twitter account. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

You are commenting using your Facebook account. Sair / Alterar )

Connecting to %s

Seguir

Obtenha todo post novo entregue na sua caixa de entrada.