A infinda história de Mary Blue e Red Rose
De muito longe vinham elas. Cansadas de tanto caminhar? Vai saber. Ponto a ponto vinham andando juntas, sem se falarem, só a se observarem.
— Puxa vida, menina. Não aguentava mais esse seu mutismo.
— E eu, então? Pensava cá comigo mesma: “Nunca vi ninguém tão calada”.
— É mesmo. Você tem razão. Não posso acusá-la de nada que eu não tenha feito também.
— Sabe, uma coisa que sempre quis lhe falar foi: “Como você é linda, com esse seu azul modo de ser!” Qual seu nome?
— Ando com um certo problema de identidade, mas pode me chamar de Mary Blue. E você, como se chama?
— Red Rose.
— Muito adequado para esse seu tom de vermelho.
— Obrigada. Gozado! Eu tinha tanto para lhe falar ao longo de todo esse tempo e, de repente, não sai nada. Por que será?
— Talvez seja pelo fato de que sempre estivemos juntas. Tudo o que uma viu a outra viu também.
Red Rose pensou, refletiu, alongou-se e disse:
— É verdade, mas nenhuma de nós sabia o que se passava no íntimo da outra. E nem tinha coragem de perguntar. Nem sabia por onde começar.
Mary Blue mergulhou em si própria, fez ar circunspecto e emergiu:
— Mas quem sabe o que se passa sequer no seu próprio íntimo? Quem tem coragem de perguntar isso a si próprio? Quem tem coragem de esperar pela resposta?
— É mesmo. Infinitas vezes me perguntei: “De onde venho? Para onde vou? Qual meu papel nesse mundo?” e nada de resposta. Aliás, incomodava-me aguardar por essa resposta sob o risco delas me dizerem que pouco importava de onde eu vinha e para onde eu ia, pois eu era apenas um detalhe do todo. Um detalhe que sozinho pouco valia. Mas eu não podia admitir que talvez fosse essa a resposta.
— E começou a brigar com você mesma como se a resposta fosse realmente essa.
— Como você sabe? Aliás, você parece tão sabida!
— Sou nada. Apenas passei e passo pelo mesmo que você, disse Mary Blue. Passei e passo por esse questionamento todos os dias. Aliás, acho que é ele que me mantém viva. Diga-se, de passagem, viva a dúvida!
— Ah, sei lá. Eu gosto mesmo é de ter respostas.
— Todo mundo gosta. Mas muitas vezes, se não sempre, a diversão maior está em buscá-las que em encontrá-las. Lembra quando passamos pela Grécia?
— Meu Deus, faz tanto tempo?
— Faz mesmo. Mas não importa o tempo. O que importa é que Demócrito estava às voltas com o pensamento de em quantas vezes ou até que tamanho poderia ser dividida a matéria.
— É mesmo… E chegou à idéia de que em algum momento ela não poderia mais ser dividida e a esse pedacinho minúsculo chamou de átomo.
— E você viu quanta coisa aconteceu de lá para cá, com base nessa idéia? Quantas áreas do saber, quantos novos materiais, quantas leis da química, física e outras áreas se desenvolveram? O mundo hoje é outro. Totalmente diferente. E sabe por quê? Porque muita gente se divertiu e se diverte procurando respostas.
— E encontrando também. Senão, desanima.
— Você não deixa de ter razão, mas eu ainda me divirto mais com a busca.
— Eu acho que cada um tem um modo de ver as coisas e as preferências que lhe são próprias.
— Você tem razão, Red Rose. Entender isso é mais uma forma de sabedoria. Mas sabe para o que eu ainda não consegui encontrar resposta?
— O quê?
— Que nós íamos nos encontrar eu sabia. Era inevitável. Está na lei. Mas e agora? O que acontece depois desse encontro?
E assim termina a história de Red Rose e Mary Blue, duas retas que se encontraram no infinito. Ou seria só o começo? Iria Mary Blue procurar a resposta à pergunta “O que acontece a duas retas paralelas depois que elas se encontram no infinito”?
08 e 09 de setembro de 2009.
Macedão gosto muito do teor, da forma e pricipalmente dos finais dos seus contos… e fazendo um paralelo do seu conto com o canal Futura, são a perguntas que movem o mundo.