Entre Outras Coisas – o livro
SUMÁRIO
1. A ALMA DO AGRESTE
2. ACORDANDO
3. O TRANSITÓRIO E A ESSÊNCIA
4. SE TODAS AS FRUTAS FOSSEM BANANAS
5. UMA RELAÇÃO QUASE EXTRACONJUGAL
6. DE ALMA SOLTA
7. SILÊNCIO! FAMÍLIA CONVERSANDO
8. O FUTURO … O FUTURO … PASSOU…
9. O MEDO DA CORTINA
10. DO GRÃO À MONTANHA
11. A TORRE DE GRAHAM BELL
12. DA LATA VIESTES, PARA A LATA VOLTARÁS
13. UM MINUTO
14. CL VASSOURAS
15. ANGÚSTIA
16. FORTES E FRACOS
17. PEQUENOS VALIOSOS
18. O CORTE PROFUNDO
19. DUAS POMBAS CINZAS
20. DA RAZÃO AO SENTIMENTO
21. SORRISO DO SOPÉ
22. ETERNA COMO OS DIAMANTES
23. IVETI
24. A LOUCURA DO ELOGIO
25. O RUGIDO DO VELHO LEÃO
26. ELE CHEGOU
27. MINHA TERNA EXPANSÃO
28. FRAGMENTOS
29. FECHANDO A CONTA
1. A ALMA DO AGRESTE (Voltar ao sumário)
O sol aquecia, impiedosamente, o solo duro e seco daquele fim de mundo. Severino estava com o olhar distante. Sua alma procurava enxergar lá longe, onde a vista humana não consegue alcançar, onde a tecnologia avançada ainda se vê limitada para sondar. Trazia o rosto sulcado pelos anos que não eram muitos, mas que haviam sido companheiros da agressividade daquela atmosfera rude. A brisa, quando vinha, soprava quente, ressecando-lhe mais ainda a pele sofrida. Mas nada disso parecia afetá-lo. Não mais. Ele achegou-se a um canto onde pequena sombra convidava-o a merecido alento. Anita aproximou-se, acompanhada de cinco filhos que caminhavam descalços, enquanto o mais novo ainda estava no colo.
— Que tá pensando? Perguntou ao marido.
Severino não respondeu, pois a mente viajava longe ou, talvez, profundamente perto. Ela insistiu. Sem se voltar, ele disse:
— Nele e em nós.
— Nele quem?
— Aquele que criou tudo o que você está vendo e o que não está vendo também.
Anita ficou olhando com tristeza para o marido. A aridez da caatinga começava a invadir sua alma e as suas crenças. Para Severino, entretanto, a situação, ou melhor, a forma de portar-se perante tudo aquilo, era diferente. Ao invés de partir para a negação, partiu para a busca, talvez desesperada, da compreensão. Não podia aceitar uma realidade em que ele e a pedra que estava à sua frente fossem considerados como feitos da mesma essência.
Severino não entendia de Biologia, nunca ouvira falar de Biogenia, mas algo no recôndito do seu conhecimento inato sabia, ou sentia, que a vida fluía do íntimo do seu ser para além dos limites da sua pele. Onde essa vida encontrava guarida? Em que meio ela apoiava-se e expressava-se? O que a alimentava? Questionamentos como esse, ainda que numa linguagem mais rudimentar, porém não menos profunda, fervilhavam na mente daquele nordestino. Paradoxalmente, esse turbilhão de idéias dava-lhe um pouco de tranqüilidade; afastava-o do lugar comum, embora justo, da indagação do porquê de tanta miséria. Também queria, como seus conterrâneos, achar a resposta a essa pergunta. Mas, diferentemente deles, sentia que estava a um passo de encontrá-la. Não acreditava na agressão pela agressão, sem um sentido justo.
O açoite da vida a acompanhá-lo desde o berço; os dias seguidos de sol causticante; os calos nas mãos, provocados pelo manejo da enxada sobre o chão duro, que não lhe devolvia a dedicação na forma de alimentos. Tudo isso merecia uma explicação aceitável. E Severino não queria ter a petulância de ficar sentado, esperando arrogantemente que alguém viesse dar-lhe essa explicação.
Na sua inocente ignorância, sentia que devia buscar a explicação observando a si mesmo e a tudo o que estava à sua volta. Percebia que isso fazia dele alguém diferente dos demais . Não melhor. Apenas diferente, menos aflito. Queria transmitir ou mesmo transfundir isso para dentro da Anita. Mas isso seria impossível, pois sentimentos como esses são como a planta: brotam da semente e chegam até a flor; vêm de dentro para fora. O caminho inverso é mais difícil e antinatural.
Severino, de repente, entendeu tudo. O sol ardente, o chão duro e a seca das caatingas eram o martelo e o cinzel do Artista Universal a esculpir em sua alma um ser humano melhor. Olhou para Anita e para as crianças e amou-os mais que nunca. Eles faziam parte dessa arte. Servindo-os, sabia ele, o seu mármore seria mais fácil de se trabalhar e a escultura poderia ficar pronta em tempo menor. Qual a dimensão desse tempo? Somente o Artista poderia dizer.
Severino levantou-se, abraçou a mulher, beijou os filhos e foi mais uma vez trabalhar o chão duro. Essa era a sua parte na Obra, que agora ele fazia com um sentimento profundo, como se aquilo fosse uma prece.
Primeiro semestre de 1999.
2. ACORDANDO (Voltar ao sumário)
Já era o terceiro ônibus que passava e Antônio não conseguia pegar também esse. Essa greve do metrô transformara sua vida e a de muitos outros num pandemônio. Iria atrasar de novo sua chegada à fábrica. Teria mais uma vez que escutar uma ladainha daquelas.
Antônio morava longe. Nas faltas do metrô, necessitava de dois ônibus para chegar ao trabalho e nem sempre os horários das duas linhas encaixavam-se, podendo causar-lhe atrasos. Quando isso acontecia, os aborrecimentos eram inevitáveis. Parece que Zé Carlos, seu chefe, não queria, de forma alguma, entender suas explicações. “Será que ele nunca atrasou na vida? Será que não há diferença, para ele, entre uma máquina e mim? Com certeza há. A máquina ele respeita mais.” Esses eram seus pensamentos quando chegou o quarto ônibus e ele conseguiu subir, espremendo-se e, mesmo assim, ficando nos degraus de entrada.
Era junho e o vento soprava gelado nas costas de Antônio que tinha um agasalho surrado, puído, segurando muito pouco o frio que fazia naquele dia, em São Paulo. Somente em sua cabeça havia um calor imenso, com a idéia da discussão com o chefe a abrasar-lhe os miolos.
Chegou com vinte minutos de atraso à sua posição na linha de montagem. Algum tempo depois, Zé Carlos chegou ao seu lado e disse-lhe para ir até sua sala, quando chegasse a hora do café.
O tempo arrastou-se como se fosse uma eternidade.
As idéias ferviam na cabeça de Antônio. Estranhou que Zé Calos não pedisse sua presença de imediato, ou que não lhe houvesse chamado a atenção ali mesmo. Mesmo assim não estava sossegado. Coisa boa é que não podia esperar. O certo é que não agüentava mais essa situação. Pensara até em demitir-se, mas o desemprego vigente levava até os mais impetuosos à reflexão. Em conseqüência, as mentes funcionavam como panelas de pressão com a válvula entupida. Desta vez, porém, estava disposto a não tolerar mais isso. Diria algumas poucas e boas àquele sujeito.
Chegada a hora do café, Antônio foi à sala do chefe. Zé Carlos foi rápido, pois tinha compromissos imediatos:
— Antônio, minha filha está fazendo sete anos e eu vou fazer um churrasco no domingo. Como sei que você tem uma filha na mesma faixa de idade, pensei que gostaria de aparecer lá em casa. Que tal?
Durante alguns segundos, Antônio ficou meio atordoado, desarmado diante do chefe. Estaria surgindo, de repente, um ser humano daquela rocha? Estaria ele conscientizando-se de que a posição de mando que ocupava, ainda que merecida, não o tornava superior aos demais? Especificamente mais habilitado, sim. Amplamente superior, não.
— E então, homem?
— Sim, sim, eu vou, balbuciou Antônio.
— Muito bem. Pode chegar lá pelas 10h00. Tem um terreno do lado, onde a gente costuma bater uma bolinha, antes. Agora vá logo tomar seu lanche, para não atrasar o retorno à linha.
— Obrigado, Zé Carlos.
Zé Carlos sorriu e saiu rapidamente para seu compromisso.
“Meu Deus do Céu, o que é isso? O que está acontecendo?”, pensava inconformado.
A reunião no domingo foi ótima. Outros colegas de trabalho estavam lá, mas depois de alguns minutos ninguém se lembrava de uma relação profissional. Apenas divertiam-se, trocavam impressões sobre os fatos comuns da vida: o futebol, a política, a televisão.
A vida no trabalho, gradativamente, mudou muito. Não existia mais aquela tensão no ar, mas apenas a preocupação de viverem melhor. E viver melhor significava respeitarem-se entre si e lembrar a importância que o emprego tinha em suas vidas.
Ninguém jamais quis perguntar ao Zé Carlos o que o levara a fazer aquela reunião em sua casa que, a todos, pareceu muito espontânea e desinteressada. Ao que constava, não havia ocorrido nenhum curso para gerentes, ou coisa assim, do qual Zé Carlos houvesse participado. E no entanto, a mudança era real. De um lado, a tolerância por parte de quem dirigia e, de outro, o compromisso implícito de acertar por parte de quem era dirigido. Alguns atrasos e faltas continuaram a ocorrer, dentro do inevitável, mas havia um esforço coletivo de encontrar alternativas para contornar a situação.
Nenhum curso ocorrera. Mas o que é a vida senão um curso, onde a nossa vivência aliada a reflexões honestas leva a resultados inimagináveis? Esse imenso laboratório relacional, onde todos são professores e alunos ao mesmo tempo, vinha ensinando coisas que, lentamente, Zé Carlos assimilava. De repente, como num lampejo, ele despertou para um entendimento mais amplo do seu papel e de todos aqueles que o circundavam, no trabalho e em casa. Aprendera e conseguira ensinar que felicidade e responsabilidade não só podem como devem andar de braços dados. Mais que isso, aprendera que não existe outra forma de ser, pelo menos não para aqueles que almejam um bem estar mais duradouro.
09/06/1999
3. O TRANSITÓRIO E A ESSÊNCIA (Voltar ao sumário)
Gumercindo não conseguia dormir. Havia dois anos que era prefeito. Havia dez que estava na política. Tivera resultados bastante positivos para sua carreira relativamente curta. Duas vezes vereador e a aprovação maciça para o atual cargo. Era respeitado por todos. Conseguia consensos entre a situação e a oposição, o que não era fácil. Começava a habituar-se ao sucesso e ao acatamento de suas vontades. Os fatos e os dias encadeavam-se desta forma quando, naquela manhã, algo ocorreu que poderia trazer algumas nuanças novas à sua vida. Era isso o que lhe estava tirando o sono.
Gumercindo havia levantado cedo, como habitualmente o fazia. Ele ouvira falar que a glória andava ao lado da ousadia, mas entendia que nem um nem outro tinham sentido sem o trabalho intenso. Ousar, para ele, era construir com coragem. A glória era apenas a colheita. E tudo isso somente seria possível se pudesse alongar sua jornada diária. Por isso, logo cedo estava em atividade. Tomava o bom desjejum de Zuleica e saía para o campo.
Vez por outra, corria terras pois não acreditava na gestão puramente de gabinete. Passou pelas posses de Severino, que não eram grandes. O que viu não era muito diferente de outros cantos. Mas algo chamou-lhe a atenção naquele homem. Não sabia dizer ao certo o que seria e resolveu parar para uma prosa. Estava acostumado a ser respeitado e até temido, pois aqueles que sofrem a mão pesada da vida sobre suas cabeças estão acostumados a abaixá-la, temerosos de que o ato de levantar o olhar diante de poderosos seja tomado por estes como uma afronta. Isso não acontecia, entretanto, com Severino. Não era atrevimento, mas sim serenidade. Consciência de quem não tem débitos. Talvez se pudesse até falar em créditos.
— E então seu moço? Tudo bem?
— Tudo bem, dotô. Anita, pega uma água pro dotô, que ele deve de tá com sede. Desculpe, seu dotô, mas só posso oferecer um pouco d’água e uma sombra na minha tapera.
— Pois já está muito bom, seu…
— Severino, à sua disposição, ajudou rapidamente o roceiro, pois viu que o prefeito não se lembrava do seu nome. Era tanta gente que devia passar por ele que não dava para guardar nomes.
Depois de alguns minutos de conversa e de ter tomado a água, Gumercindo preparava-se para ir embora, quando disse:
— Estou notando as suas dificuldades aqui, seu Severino. A terra precisando de preparo, os seis filhos carecendo de roupa, alimento, escola. Como o senhor sabe, devemos ajudar uns aos outros. Afinal uma mão lava a outra.
Como falta de instrução não é sinônimo de ausência de inteligência, Severino captou a mensagem e respondeu:
— Se o dotô não puder me ajudar, ainda assim eu vou fazer o que puder para ajudar o dotô a cuidar da nossa gente.
Gumercindo enrubesceu. Misturou vergonha com raiva, procurou não deixar transparecer o que sentia e foi-se embora, depois de despedir-se. Passou o dia remoendo o acontecido.
Agora, em seu leito, passado o impacto do inesperado, Gumercindo refletia. Notara a resignação daquele homem sofrido do campo, a esperar pela consciência dos que podem mudar, um pouco que seja, o rumo de sua vida e de tantos outros Severinos.
A resignação estava na certeza de que nada é para sempre. De que um dia, os Severinos teriam a sua chance, não de possuir poder, mas de viver.
Da mesma forma, Gumercindo sentiu que aquele homem, bom afinal, apenas manifestara sua opinião, o que por sinal é um direito de todos e não apenas daqueles que, temporariamente, estão em posições privilegiadas. Posições essas que lhes conferem mais deveres que direitos. Afinal, só pode puxar para cima, quem acima está. E só deve subir quem estiver predisposto a esquecer-se de si mesmo.
Gumercindo era um bom líder do seu povo, mas naquele dia, num cacoete da carreira, fora comprar voto para o futuro. Acabara trazendo, de graça, uma lição sutil e duradoura. Virou para o lado, viu Zuleica dormindo tranqüila, ajeitou o travesseiro e adormeceu.
Final de 1999 e início de 2000.
4. SE TODAS AS FRUTAS FOSSEM BANANAS (Voltar ao sumário)
Estávamos sentados à frente de uma bela mesa, na qual sobressaíam-se as frutas, pela beleza de formas e cores. Laranjas, maçãs, bananas… Eu sei lá porque, pensei em seus nomes em espanhol: naranjas, manzanas, bananas… Interessante! Banana é igual! Aliás, ela é igual até em inglês. É quase que universal! Se esta fosse a única fruta no mundo, teríamos um pouco mais de facilidade para pedir pelo menos um dos alimentos em vários países. Comecei a refletir sobre um aspecto da comunicação. O mundo tem sonhado com uma forma universal de entender-se. O Esperanto foi uma primeira tentativa nesta direção. A difusão do Inglês talvez seja outra, tendo acontecido o mesmo com o Grego há alguns milênios. A avidez pelo entendimento mútuo é mais que uma expectativa, é uma necessidade.
Porém, mais que uma comunicação de bocas, faz-se necessária uma comunicação de mentes, de corações. Ficasse a carência na primeira dessas formas e muito já se teria resolvido. Mas não é o que ocorre. Fosse assim, países que falam o mesmo idioma teriam laços em harmonia. O conflito Inglaterra / Índia não teria ocorrido. Sim, o problema lá era a relação dominador / dominado e o Inglês foi por um imposto ao outro. Mas menciono o fato para mostrar que falar a mesma língua, independentemente da forma em que foi adotada, não resolveu. Foi necessária a presença de um homem de alma forte, ainda que em corpo frágil, para comover grandes e poderosos e levá-los a respeitar seu país, a ponto de irem-se embora convictos de que a liberdade era um direito daquele povo, ainda que em sua maioria fossem ignorantes e pobres. E isso sem que sua saída fosse exigida em troca de suas vidas.
Mas para não ficarmos na limitação que a relação dominador / dominado possa impor à nossa reflexão, por que não trazermos a discussão para o âmbito nacional? O que foi visto na Guerra de Secessão dos Estados Unidos da América, bem como em tantos outros conflitos civis, foi um ódio muito grande a dizimar vidas de irmãos pátrios e, mais uma vez, não foi a língua que veio em socorro do estabelecimento da paz. Poder-se-ia dizer que a diferença cultural e/ou de dialetos entre estados poderia ter trazido dificuldades ao bom entendimento. Convidaria, então, a restringir mais a variância lingüística e observar o problema dentro de um único estado ou mesmo município e veríamos que o que anda ocorrendo em grandes metrópoles, como em São Paulo, Rio de Janeiro, Nova Iorque e outras, pouco ou nada tem a ver com idioma. Diferenças sociais, credos religiosos, etc.? Sim, mas podemos fechar ainda mais o nosso campo de observação e vir para dentro da família. Continuaríamos e continuamos a ver seres humanos estranhando-se e dilacerando-se moral ou até fisicamente. Não falam eles a mesma língua? Não possuem a mesma cultura? Não possuem o mesmo padrão social? Não existem inúmeras semelhanças entre eles? Por que, então, o desentendimento?
Aprendemos, apesar de tanto já ter caminhado a nossa sofrida Humanidade, a falar apenas com a boca. Esquecemo-nos, ou ainda não aprendemos, a ouvir o sentimento do outro. O estabelecimento da fronteira dos direitos é pouco respeitado. Mais que isso, tal fronteira é mal compreendida. Alguns até a respeitam, mas criam outro problema: não a adentram quando é necessário. E muitas vezes é necessário. Quando, por exemplo, há um clamor, mesmo que mudo, por socorro. Não o socorro contra um mal que todos vêm, mas aquela tortura em silêncio sem que nem seu proprietário saiba da sua existência.
Falta, ainda, bastante para o estabelecimento da compreensão natural. A semente da compreensão raciocinada já foi plantada e até germinou, mas os frutos estão um pouco distantes no tempo. E a água que a regará e os nutrientes que a alimentarão não residem, simplesmente, na existência de um idioma.
Início de abril/2000.
5. UMA RELAÇÃO QUASE EXTRACONJUGAL (Voltar ao sumário)
Quem nunca deu sua escapadinha? Pois é. Aconteceu comigo noutro dia.
Parei meu carro em frente à padaria. Não possuía pretensão outra que comprar dez pãezinhos e três litros de leite – dois “B” e um “C”. “B” para alimentar bem as crianças. “C” para não aumentar os pneuzinhos, da patroa e meus.
De repente, percebi que ela estava olhando para mim. No início tímida, insegura se eu haveria de desejá-la ou não. Era moreninha. Eu poderia ser afeito a outras preferências. Ganhando confiança, encarou-me com maior atrevimento. Praticamente se oferecia.
Comecei a suar, sentindo que poderia perder o controle de meus pensamentos e atos. Ouvi, repetidamente, uma voz longínqua, quase irritada: “Pois não, senhor?”
Atordoado, olhos vidrados, mãos trêmulas, pernas querendo me trair, fiz meu pedido e meus olhos voltaram a concentrar-se no objeto do meu profundo e arrebatador desejo daquele momento. Antes imóvel, ela começou a mover-se, vindo em minha direção. Não havia dúvida, era para mim que ela vinha.
Meus pensamentos alheavam-se de tudo que se acercava de mim. Nem a trágica hipótese da inesperada e inconveniente presença de minha esposa parecia preocupar-me. Foi quando ela se aproximou mais. Podia, com certeza, sentir meu hálito, notar meus olhos brilhantes e sequiosos e até ouvir minha pulsação. Meus lábios entreabriram-se e não pude mais resistir. Sentia sua fragrância tentadora e estava quase a sentir seu sabor, quando ouvi a voz indignada de minha esposa atrás de mim:
— Gordo sem-vergonha! Esqueceu seu regime?
O susto foi tão grande que deixei a bomba de chocolate despedaçar-se no chão, antes de saboreá-la.
15/04/2000.
6. DE ALMA SOLTA (Voltar ao sumário)
A suavidade da tarde, com sua brisa fresca espantando meu calor, suas luzes suaves descansando meus olhos, penetrava lentamente a alma que ainda era jovem, embora residindo num corpo que nem tanto.
A garça que havia sido a medida da quietude da represa, ao longo do dia, já não estava mais lá. Hora de sustentar o corpo, já que garças não filosofam para sustentar a alma. E ainda que o fizessem, o corpo, mesmo assim, reclamar-lhes-ia substância.
Sento-me com um livro, que convidei para compartilhar, ou mesmo ser cúmplice, daquele momento. Estava a iniciá-lo e suas primeiras páginas, há tanto escritas, traziam-me coisas novas. Se vinham de 1939, como poderiam ser portadoras de novidades? Será novo o que nasce, ou aquele que se faz conhecer? Conheci, um dia, Marselha, com seus 2600 anos então. Plena de novidades para mim. Pondo, novamente, pés e mente em solo brasileiro, lá estava eu com meu livrinho. Mário de Andrade que me perdoe, por falar assim de seu Contos Novos. Refiro-me ao tamanho do exemplar e não à sua qualidade. Minha escala seria pequena para medi-la. Talvez esteja colocando um pouco de afeto ao referenciar o pequeno companheiro daqueles minutos (não o Mário, já em outras esferas, mas o livro).
As primeiras páginas, naquela tarde, foram poucas pois as pessoas começaram a sair e acenavam o seu “até mais ver”. Livros são grandes companheiros, mas as pessoas são imprescindíveis. Não que eu possa deles prescindir, mas enquanto eles relatam o que ocorre com pessoas e seu meio, elas próprias já são um relato vivo, meio realidade, meio ficção, lembrando o que disse Gabriel García Márquez de que nem toda ficção é totalmente destituída de realidade e nem toda realidade é completamente isenta de ficção.
Fato é que, a cada uma que passava, eu parava, levantava para um abraço, algum comentário, um sentir de perfume da Vovó Maria e as costumeiras despedidas.
Mas a leitura interrompida seguidas vezes não trouxe irritação ou incômodo. Seria uma heresia contra a agradável presença daquelas pessoas e contra a beleza daquela tarde, na casa dos cunhados, à volta de uma certa represa conhecida por Broa. Seu nome oficial é Represa do Lobo, mas, segundo dizem, adquiriu o apelido acima porque, na estrada que a interliga à cidade de São Carlos, havia uma senhora que vendia uma broa muito gostosa.
As últimas pessoas que se aproximaram eram minha própria família, lembrando com sua presença que já era hora de retornarmos à cidade.
Quando a tênue claridade foi substituída pela densa e tranqüila escuridão da noite, o livro já estava fechado em nossa casa. A garça já devia estar dormindo.
16/04/2000.
7. SILÊNCIO! FAMÍLIA CONVERSANDO (Voltar ao sumário)
A noite prometia não ser muito diferente das demais. Minha esposa e eu chegamos do trabalho. A fadiga habitual diluía nossos músculos, entorpecia nossos cérebros, aguçava nossos tímpanos irritadiços. Os ruídos das crianças, que já não eram tão crianças, ganhavam uma intensidade muito maior que a real. Acabávamos, muitas vezes, por desentendermo-nos com elas, exigindo um silêncio incompatível com sua idade e energia. Daniel, com todos os seus dezessete anos, provocava Maria Angélica, na época com quatro. Bruno estava com quatorze e ora tomava partido de um, ora de outro. Corrigindo, irmãos não tomam partido, mas sim unem-se dois contra um terceiro. Muitas vezes, ele ficava neutro.
Hoje, está um pouco diferente a situação. Daniel está fazendo seu curso superior em outra cidade e Bruno assumiu a incumbência auto-outorgada de brigar com a Maria Angélica. Quando Daniel vem passar o final de semana em casa, Bruno descansa e Daniel reassume seu posto. Não logo nos primeiros instantes. Nos cerca de trinta minutos iniciais, a saudade de duas semanas de ausência transforma a relação fraternal em reunião de querubins, faltando apenas as harpas. Vencido esse infinito período, lá estão os gladiadores na arena novamente. E haja cabelos para Iveti, minha esposa, arrancar. Voltando ao citado dia do início desta crônica, fomos ao merecido e necessário banho! Não falo da necessidade odorífera, mas da terapêutica. Aquela sensação, que só um banho pode trazer, de que a água, ao baterem suas primeiras gotas em nossa cabeça, assemelha-se à reidratação de um solo ressequido. Só nos falta sentir aquele cheiro de terra dos princípios de chuva. Aí ela vai escorrendo pelo corpo, como que levando nossa pele desgastada, enquanto a substitui por outra mais nova, menos sofrida. Junto com a casca velha, nele incrustados, vão-se nossos dissabores do dia e vamos nos tornando diferentes, melhores, mais tranqüilos.
Após essa metamorfose induzida (ou seria metapsicomorfose, se existisse?), dedicamo-nos ao que, para uns, é apenas uma refeição. Para mim, é aquela luta de tentar descobrir onde termina a necessidade de se alimentar e onde começa um dos meus pecados: a gula. Dizem que é pecado capital. Para mim, assume dimensões de nacional, com governo e tudo. Não. No meu caso é desgovernado. Estávamos quase ao final dessa gloriosa atividade, quando as luzes apagaram-se. Ou melhor, eu estava. Os demais já estavam se retirando da mesa. Sou sempre o último, não sei porque. Ficou tudo escuro. Maria Angélica grudou-se em mim, fingindo medo (ou não seria fingimento?).
Os meninos resmungaram um pouco, mas não houve alternativa além de ficarmos, à luz das velas, conversando na sala de estar (após deixar nossos dentes melhores que nossas almas). Vários assuntos foram discutidos, sobre as mais diversas áreas, sem compromisso, mas com muito proveito.
— Sem o emburrecedor ligado, a gente se dedica a coisas bem mais proveitosas, disse Iveti.
Emburrecedor – este foi o apelido carinhoso que demos ao aparelho de TV.
Não me lembro mais do que falamos, mas não vem ao caso porque não fizemos nenhuma descoberta revolucionária para a Humanidade.
Descobrimos algo importante para nossa família – o quanto estávamos carentes de um momento como aquele, sem a presença inconveniente de uma caixa cheia de componentes, com um cinescópio na frente, que dá a intrusos o direito de invadir nossas casas e dizer do que nossa família deve gostar, o que deve comprar, que novos hábitos deve adotar, que lazeres deve escolher e tantas imposições induzidas. Claro que traz informações numa velocidade nunca antes alcançada, mas como o próprio nome diz, transforma-nos em telespectadores. Não participantes, mas só espectadores e à distância, talvez para não incomodar.
Naquele dia sem energia elétrica, discutimos, participamos, emitimos opiniões, trocamos informações. E sentimo-nos tão relaxados! Diferentemente dos dias em que íamos, ou ainda vamos, até altas horas com o ruído e as imagens muitas vezes cansativas da nossa amiga TV. Sua intromissão é tão forte que esperamos que um incidente de falta de energia elétrica venha substituir nossa falta de energia para dizer-lhe: “CALE A BOCA! ESTAMOS CONVERSANDO.”
Semana de 17/04/2000.
8. O FUTURO … O FUTURO … PASSOU… (Voltar ao sumário)
A tarde estava boa para empinar pipas. Um bom vento, céu azul e era sábado. Não havia a preocupação de fazer o dever de casa, pois a professora não os costumava passar para os finais de semana. Pedia apenas que cada aluno escolhesse um livro na biblioteca da escola e o lesse. Jurandir apanhou um livro que continha uma história envolvendo pipas. Isto despertou-lhe o desejo de soltar uma.
Havia um problema: ele não a tinha e era sexta-feira. Sua mãe trabalhava num escritório de contabilidade e era dia de fechar o balanço de um dos clientes da firma. Não iria almoçar em casa e, portanto, não poderia comprar o material para fazer uma pipa. Seu pai era engenheiro e havia viajado para visitar uma obra em uma cidade não muito distante, mas voltaria somente à noite. No sábado, alguns consertos em casa, compras para abastecer a casa e mais a sua limpeza fizeram com que nada fosse alterado no destino da pipa inexistente e o fato é que lá estava Jurandir, grudado à grade do portão, vendo seus amigos passarem com suas pipas e, alguns, com seus pais.
O menino, meio que revoltado, respondeu ao convite de um deles:
— Eu não posso empinar pipa hoje. Meu primo vai chegar p’ra gente brincar.
Zulu, seu cãozinho, chegou-se, preguiçosamente, ao seu lado e praticamente esborrachou-se para um cochilo. Jurandir estava tão amuado que nem notou a presença do seu companheiro. Entrou de carranca fechada e ligou a TV
Vovô Antunes, que viera passar o final de semana com eles e que lia o jornal, viu tudo o que se passara.
— O Marquinho vem aqui, Jura?
— Não, vô.
— Mas eu escutei você dizendo para seus amigos que seu primo viria brincar com você.
— Eu menti, vô.
— Mas, por quê?
— Porque meu pai não quer fazer uma pipa p’ra mim e eu não vou falar isso p’ra eles.
— Não seja injusto. Não é que ele não quer. Ele não pode. Ontem chegou muito tarde. Devido ao cansaço, dormiu um pouco mais, hoje. Tinha várias coisas para fazer e sua mãe também. Acabou não conseguindo comprar o material e fazer. Na semana que vem, ele compra as coisa durante a semana e faz.
— É sempre assim, vô. Acaba não fazendo coisa nenhuma. E, também, eu não vou querer mais.
Vovô Antunes levantou-se, com a calma ensinada pelos anos, e sentou-se ao lado do neto.
— Você sabe o que é uma capucheta, Jura?
— Eu não. O que é isso?
— Quando eu era pequeno, era difícil comprar papel de seda, varetas e outras coisas. Então, pegávamos um pedaço de jornal e, com algumas dobras, fazíamos a capucheta. Púnhamos uma rabiola e lá íamos nós.
— Ai, vô. A turma vai gozar da minha cara.
— Você quer se divertir ou não?
— Quero.
— Além do mais, podemos pegar uma folha de papel para presente que sobrou do seu aniversário ao invés de jornal. Você vai ver como todos vão ficar curiosos.
Com sua experiência e numa tática improvisada, Vô Antunes pegou o material e deixou para fazer a capucheta no local onde seria solta, junto com os amigos de Jurandir. Avisou ao filho e à nora e lá se foi com o neto.
Chegaram ao local e, sem falar muito, Vô Antunes sentou-se num banco com o material.
— O que seu avô vai fazer, Jura?
— Uma capucheta, falou rapidamente o avô, prevendo que a palavra ainda não era íntima do neto.
— Uma o quê?
E todos aproximaram-se. Vô Antunes começou a trabalhar, fazendo umas graças, brincando com um e com outro. Os pais também ajudaram a criar um clima favorável, dizendo que também tinham feito isso na infância, mas não com um papel tão chique. Aquilo deixou Jurandir todo cheio de si. Poucos minutos depois, a capucheta estava pronta e no ar. Um dos meninos disse:
— Parece aquilo que uns padres põem na cabeça.
— Um capuz, não é? Acho que é exatamente daí que vem o nome, disse Antunes.
A tarde acabou sendo muito divertida para todos. Depois, uma passada da turma pela sorveteria da esquina, completou o evento. Todos voltaram para casa com a promessa de Jurandir trazer a capucheta no dia seguinte, de manhã. À tarde iria ler o livro.
À noite, quando Jurandir já estava dormindo, Vovô Antunes conversou com o filho, sobre o ocorrido.
— Luís, meu filho, pare um pouco para refletir sobre sua vida, sua família, seu filho.
— Mas papai, eu penso muito neles. Acontece que minha vida tem sido um aperto muito grande de trabalho.
— Você está lembrado do Pequeno Príncipe, de Saint Exupéry? “Tu és responsável por aquilo que cativas.” Lembra?
— Lembro e é exatamente por isso que eu trabalho tanto, para possibilitar uma boa escola para ele, boas roupas, alimentação…
— Não há dúvida, meu filho, de que você é um pai consciente, honesto e trabalhador. Qualquer um pode ver que você está cuidando muito bem do corpo e até da formação intelectual do seu filho. Mas e o seu espiritozinho leve de passarinho? Você está lhe dando asas para que ele possa alçar vôo? O que eu vi, hoje, foi um pássaro engaiolado, ferido em seus anseios mais simples. E o que ele precisou para libertar-se? De pouco, muito pouco mesmo: uma folha de papel, linha, um sorvete e não muitos minutos de uma tarde de sábado.
Luís olhava para o chão com a tristeza ou o desespero de quem quer se defender, mas sabe que não era de defesa que precisava, pois não estava sendo atacado. Estava sendo instruído, por quem conhecia a vida por vivê-la, não por tê-la lido num livro. Antes que lágrimas tímidas, mas significativas, umedecessem seus olhos, teve tempo de ouvir Antunes dizer:
— Luís, os melhores momentos de nossas vidas, passamos planejando o que faremos quando chegar o futuro. Não percebemos que o futuro chega a cada momento e, de repente, o futuro já virou passado e a vida já passou. Não que devamos viver o presente irresponsavelmente, sem preparar o futuro. Mas não podemos ser hipermétropes para com as carências dos que estão à nossa volta, vendo o que se passará com eles lá na frente, sem ver o que tanto necessitam agora.
Abraçaram-se e foram dormir.
Na tarde de domingo, enquanto todos descansavam após o almoço e Jurandir lia seu livro, cheio de gravuras, todos ouviram seu grito de entusiasmo:
— Vô, olha! Correu para Antunes e mostrou-lhe, excitado, o desenho de uma capucheta em seu livro.
06/05/2000.
9. O MEDO DA CORTINA (Voltar ao sumário)
A noite de 10 de junho estava um pouco fria, mas gostosa. A família estava animada. Iríamos à festa de aniversário de nossa afilhada Maria Amélia.
Depois de estarmos todos prontos, levamos os habituais quase trinta minutos para sairmos de casa. Era o filho que se esquecia de por o cinto ou ainda estava com o tênis velho e voltava para trocar. Era a Iveti que não via em sua blusa nenhuma tirinha preta que combinasse com o sapato preto. Quando tudo isso estava resolvido, o Bruno sentia aquela vontade atroz de ir ao banheiro. Eu, por minha vez, quando me lembrava de pegar a chave do carro, esquecia os documentos.
Concluído o ritual de desocupação do ninho, ocupamos o veículo. A Iveti desentendia-se com a Maria Angélica, que insistia em explorar o teto solar do carro recém adquirido. Não deveríamos inibir essa iniciativa. Ela poderia encontrar a utilidade para aquele orifício que, em dias de sol, faz com que o carro se aqueça muito (e o fechamos) e, em dias de chuva, permite a entrada de água (e o fechamos). Em noite de estrelas, sim, é muito interessante durante uns três a cinco minutos (e o fechamos).
Chegamos à casa da festa. Logo ao cruzar o portão, notamos uma mesa no quintal, cheia de adolescentes, que nos observaram, qual se fôssemos dinossauros. Disse à Iveti:
— Nós dois juntos somamos as idades de toda a turminha.
Por sorte, logo notaram nossos filhos e a Karina, namorada do Daniel, nosso primogênito. Foram nossos passaportes para sairmos do Jurássico.
Encontramos o restante do pessoal e seguiram-se os habituais cumprimentos, com abraços, beijos e apertos de mão. É tão bom rever as pessoas que tornam nossas existências agradáveis!
Depois de ver a todos, percebi, lá no canto de sempre, a bela, insinuante e irresistível mesa das tentações, com seus patês, mousse de gorgonzola, tábua de frios e a cesta de pães. Esta, então, passou a ser uma obra de arte. Pães de todos os tipos e formatos compõem, agora, tais cestas: uns possuem gomos, que lembram, grãos de trigo, outros possuem sementes de gergelim, outros de papoula (vejam só!), alguns são coloridos pelo uso de beterraba ou espinafre. E os sabores, então ! Claro que tudo isso pede um bom vinho. E os nossos compadres providenciaram ótimas marcas e tipos.
Transcorria a festa, normalmente, com os diversos assuntos sendo discutidos, nas várias rodinhas. Em uma mesa, instalada na copa e, constantemente, abastecida pela comadre Lívia, estávamos, a um dado instante, o Apolo Neto, irmão do compadre Gláucius, Apolo, seu pai, Nilson, seu tio, Djalma, seu cunhado, e eu.
Do assunto não me lembro, pois o que sucedeu a seguir apagou qualquer memória que pudesse ter sobre o que discutíamos. Não estava engolindo nada, mas algum pequeno detrito que por ali estivesse foi alojar-se na entrada da traquéia e eu comecei a ficar desesperado. Na tentativa de encher os pulmões, eu produzia um som porcino. Queria torná-los plenos para, a seguir, tentar expulsar aquele fragmento através da tosse. O receio era esvaziar o pulmão e não conseguir enchê-lo, novamente.
No começo, por ser eu muito dado a brincadeiras, as pessoas pensaram que fosse simulação. Mas logo perceberam que era sério, principalmente pelo desespero da Iveti, que só perdia para o meu.
Comecei a temer que pudesse perder os sentidos por má oxigenação e aí, no meu modo de ver, seria o fim. A Iveti gritou pedindo ajuda ao Ricardo, irmão de Gláucius e médico, que já estava chegando por trás e começava a fazer o que ele e outros médicos presentes chamavam de manobra. Não sei descrever com precisão técnica, mas ele agarrou-me por trás e comprimiu várias vezes, em apertões, o meu diafragma.
Parecia que não ia resolver, pois, numa das tentativas, o detrito ameaçara sair e voltara a alojar-se. De repente, algo voou da minha boca e eu senti uma espécie de torrente caudalosa de ar descendo pela boca, laringe, traquéia, brônquios, bronquíolos e alvéolos e os pulmões puderam “saborear” este elemento precioso da vida que é o oxigênio.
A vida, cujos calcanhares eu chegara a ver fazendo a virada da esquina, voltava arrependida por ter pensado em abandonar-me.
— Ai, Álvaro! Que susto você nos deu! Diziam alguns.
— Assustados, vocês? Imaginem eu, que já estava preenchendo ficha do outro lado. Chegaram a me pedir CIC e RG. A sorte é que eu estava sem o RG. Voltei para pegar e consegui escapar.
Todos riram, mais por um alívio nervoso que por acharem graça.
Tudo voltava ao normal, ou quase normal. Não houve outro assunto, durante o restante da festa. Não comi mais nada. Evitei até refrigerantes. Fiquei vários dias com esse receio de comer. Já havia passado por um engasgamento antes, mas este parecera-me mais sério.
Os dias seguintes trouxeram-me uma sensação estranha. Sentia-me um pouco deprimido. Minhas crenças religiosas, no momento do fato, estiveram ausentes. Tinha apenas a preocupação da sobrevivência na mente. Passado o incidente, ficara o sentimento de que estivera de frente para a cortina, a olhá-la perplexo, com receio do que pudesse estar do outro lado. Era como se tivesse, inclusive, colocado uma mão em sua borda e já começasse a puxá-la. Creio que haja muito para ser visto, mas as primeiras imagens que pude vislumbrar, pela pequena fresta, eram as ausências que teria que enfrentar. Temporárias, eu sei, mas ainda assim ausências. E dolorosas.
Passara a observar as coisas de casa com um olhar diferente. Olhar de enxergar e não só de ver. O quintal de inverno, como dizia a Iveti, estava feio, a grama seca, as árvores desfolhadas… Para mim não era assim. Não que estivesse bonito. Simplesmente estava. Se eu tivesse puxado de vez a cortina, ele não estaria mais. E aí de que importaria a beleza? Eu não a veria e minha família não a sentiria. Portanto, seu valor agora era outro, era existencial, sem pedir qualificativos. Assim acontecia com outras coisas e, principalmente, com as pessoas. Iveti ficou uma ternura só! Redescobriu seu marido e o que sente por ele. Deixou de ser um instrumento de abrir latas e potes de conservas e voltou a ser o namorado, o companheiro. Na via inversa, a mudança era equivalente.
O que aconteceu naquela noite foi, paradoxalmente, interessante. Enquanto muitas vezes um prato cheio de comida não consegue saciar um corpo, um pequeno fragmento não engolido conseguiu alimentar, pelo menos, duas almas. Primeiramente, causou-lhes forte impacto. Isso deve ter sido o momento de sua digestão. Depois, transformou-se em linfa, a espalhar-se por este casal, que quer esperar mais alguns anos, para puxar de vez e, quem sabe, sem receios, a cortina.
~15/06 a 22/06/2000.
10. DO GRÃO À MONTANHA (Voltar ao sumário)
Frederico acordou azedo. Tal qual acontecia com a seqüência de tarefas matinais, seu humor nada invejável estava se tornando uma rotina. Helena já estava na cozinha preparando o desjejum e os lanches das crianças.
Entre as tarefas domésticas matinais, compete a Frederico gerenciar a assepsia e a troca de roupas dos filhos.Começa por acordar um por um: Ricardo, aos doze anos, com a adolescência dando as primeiras arranhadas na sua simpatia, acorda tão sociável quanto o pai; Carlinhos, dois anos mais novo, é um exemplo de ressuscitamento diário, sem um humor, sem reclamações e sem o mínimo sopro de vida, nos primeiros minutos; Isaurinha, com nove, é a mais esperta, porém, estica um pouco na leitura, ao deitar, e acabava tendo dificuldade para restabelecer os contatos; Marília, aos sete, é quem demanda maior atenção. Os primeiros dez minutos, portanto, resumem-se numa seqüência de sacudidelas impacientes, de cama em cama. Depois que os três mais velhos começam a mexer-se nos leitos e alguns até escorrem para fora deles, Fred, como lhe chamam Helena e os amigos, começa a cuidar da menorzinha. De olhos fechados, qual um autômato, Marília levanta uma perna para que ele lhe tire uma parte do pijama, depois outra perna e assim por diante, até que ela esteja com o uniforme da escola. Olhos ainda fechados.
Carlinhos resmunga à porta do banheiro, pela demora de Ricardo. Marília, finalmente, senta-se para por o tênis. Dos cabelos ondulados a mãe cuida logo a seguir. Laurinha já cuida dos seus.
A seguir, Frederico, cuida de si: barba, banho, roupa, gravata, etc. É diretor de uma empresa de médio porte e está acostumado a tomar decisões maiores, planejar, traçar diretrizes, delegar tarefas a gerentes que as distribuem pelo pessoal operacional. Essa atividade familiar matutina conflita com sua personalidade ou com o Frederico executivo.
Quando chegou à mesa, Helena pediu-lhe que pegasse o requeijão na geladeira.
— Por que você ainda não fez isso?
— Porque estava cuidando do café, do leite, dos lanches, dos talheres, etc., etc., etc. Quer mais uma lista ou basta?
Sem responder ele vai ao refrigerador. Volta de cara fechada.
— Fred, sente-se e relaxe. Vamos começar um dia melhor.
Ele irrita-se, por entender que ela está tentando ditar-lhe uma conduta. Mas não chega a dizer nada. Toma seu desjejum e levanta-se. Poucas palavras foram trocadas. Aliás, economia verbal tem sido outra característica sua.
Todos escovam, rapidamente, os dentes e correm para o elevador, mochilas abertas e penduradas nos ombros por uma única alça, enquanto guardam os lanches. Frederico que se antecipara para chamar o elevador, espera impacientemente, durante a eternidade dos segundos. O elevador chega e todos descem para apanhar o carro e mergulhar no trânsito da metrópole. Os semáforos parecem mais demorados que nos outros dias, o senhor idoso dirige o seu carro, lentamente, como seria de esperar para sua idade, à frente do tenso Fred, a senhora obesa termina de atravessar a rua com alguma dificuldade, também à sua frente. Parece que todos fizeram um complô para testá-lo, hoje. Seus nervos estão mais tensos que cordas de violino. De um lado, é puxado por uma agenda de compromissos complexos e preocupações sobre como melhor encaminhá-los, para o presente e para o futuro. De outro lado, a necessidade de autodomínio a dizer-lhe que sua posição exige uma pessoa que controla, não somente seus dirigidos, mas, sobretudo, a si mesmo. Não é o autocontrole de quem está preocupado com seu equilíbrio e sua saúde, tanto física como mental, mas sim uma cobrança profissional, de competência para viver uma verdadeira guerra, demonstrando pretensa serenidade.
Após deixar as crianças na escola, consegue, finalmente, chegar ao trabalho. Telefonemas, recados de seus colegas diretores e a agenda preparada há dias esperam-no. Pede a Marluce que lhe leve um copo d’água e vai à sua sala.
— Dr. Cardoso pediu para avisá-lo que deseja falar-lhe, avisa Marluce ao deixar a bandeja sobre a mesa.
— Desculpe-me por não esperar, meu velho, mas acho que quinze anos trabalhando juntos me dão um pouquinho de liberdade.
Cardoso, o diretor técnico da empresa, antecipara-se a um retorno da secretária e já estava em pé, à porta.
— Claro, Cardoso. Entre e sente-se.
Como sempre, Frederico esforçava-se, naquele momento, para ser polido. Na verdade, escondia uma irritação, tanto pelas coisas que tinha que fazer, como pela intimidade que o colega quase impunha. Também sua tranqüilidade incomodava-o. E aquele hábito de chamá-lo de meu velho era outra coisa que o desagradava. Estava relativamente distante da idade do outro diretor.
— Fred, acho que vou precisar de uma hora de sua atenção.
— Sinto muito Cardoso, mas vai ser um pouco difícil, nesta manhã. Dê uma olhada na minha lista.
— E se eu lhe disser que é para salvar a vida de um grande amigo?
— Meu Deus! Algum problema com o Milton? Falei com ele, ontem à noite, e me pareceu bem.
Milton era o diretor de marketing, cargo que acumulava com a presidência da empresa.
— Não. O Milton está bem, de fato. Aliás, foi discutindo com ele que cheguei, ou chegamos, à conclusão de que deveríamos salvar esse amigo.
— Quem é, então? E, seja quem for, é claro que eu posso despender não só uma hora, mas o dia todo, ou mais.
— Você.
…
Houve silêncio. Frederico ficou meio desconcertado e sem entender.
— Mas eu estou bem.
— Será? A que horas você se levantou?
— Às 5h45.
— Quantos sorrisos você deu até agora?
— Ora, Cardoso, pare com isso. Que bobagem.
— Quantos?
— Você acha que dá para sorrir no corre-corre do começo do dia?
— Está querendo me dizer que já está acordado há 2h45 e não deu nenhum sorriso? Você tem quatro belos filhos e uma esposa dinâmica, além de companheira, e não consegue encontrar motivos para sorrir-lhes uma vez sequer, durante, deixe-me ver, 165 minutos?
— Meu caro, logo cedinho, eu tenho que ficar brigando com quatro crianças para que eles acordem. Carlinhos, na porta do banheiro, fica a reclamar com Ricardo, o tempo todo. Marília, largada na cama, tendo eu que lhe tirar e colocar perna por perna, braço por braço, dentro das roupas. Minha mulher a cobrar bom humor. Como você espera que eu reaja?
— Procure pensar em cada coisa que me disse. Isso que você fala do Carlinhos e do Ricardo nada mais é que vida, energia. Eles têm saúde suficiente para estarem de pé, reclamar e lutar pelo seu espaço, coisa que, aliás, nós também fizemos, no devido tempo. Faz parte da experiência, do reencontro com o mundo. O ser humano faz isso, há centenas de milhares de anos. Chega na adolescência e procura, ou melhor, é propelido a enquadrar-se nesse mundo física, psicológica e socialmente. É complicado, mas tem dado mais ou menos certo. Muitas vezes, os erros ficam por conta dos adultos.
“Agora, a Marília. Cada vez que você tira uma perninha dela de dentro da roupa, deveria dizer: “Obrigado, meu Deus, por ela ter perninhas tão perfeitas.” Se ela não as tivesse perfeitas, ainda assim poderia dizer: “Obrigado, Senhor, por ter confiado a mim essa criaturinha tão frágil, que eu tanto amo, para fazê-la feliz e mostrar-lhe que é Sua filha.” Já olhou o semblante sereno dela, quando ainda está sonolenta? É a paz que você deveria procurar para si.
“ E Helena, então? Você diz que ela lhe cobra bom humor. Ora, não seja míope da alma, meu amigo. Ela não cobra, mas, sim, torce por você e quer vê-lo feliz. É lógico que ela quer isso para si, também, e para os filhos. É natural a busca da felicidade, embora nos pareça tão distante. Mas, na verdade, está mais próxima do que imaginamos. Só que, quando Helena pensa nisso para você, é de forma desinteressada, preocupada com o ser humano que está à sua frente, não o diretor administrativo. Aliás, esse é outro aspecto que o incomoda, não é?
— Qual?
— O diretor tem que trocar roupinhas de crianças. Parece pouco para você, que ganha muito para ficar fazendo tarefas tão pequenas. Precisamos separar algumas coisas. Em primeiro lugar, a sua remuneração diz respeito às suas atividades aqui dentro. Para isso, você se preparou profissionalmente. Em segundo lugar, a remuneração, pelo que você faz com seus filhos, ocorre em outro tipo de moeda: o contato com suas peles e cabelos, o abraço que eles lhe darão, se você trancar essa cara sisuda num cofre, a certeza de criar filhos social e psicologicamente saudáveis e assim por diante.
“ E tem mais, meu amigo. Ainda que as tarefas fossem pequenas, mas não são, a natureza nos dá milhões de exemplos de coisas gigantescas que começam no ínfimo. Para sermos grandes, não podemos esquecer de valorizar o pequeno.
“ Ouça esse velho, que já aprendeu algumas coisas, a duras penas. Aquele pequeno infarto, que eu tive, há cerca de dez anos, eu não adquiri sem esforço, não. Foi construído dia após dia, com muita tensão e desequilíbrio. Depois que ele veio, ou eu mudava meus hábitos ou me mudava para o cemitério. Decidi pela primeira alternativa. Os problemas mudaram? Não. Mas aprendi, de uma vez por todas, que nenhum deles podia ser resolvido na ausência da calma. Meus conhecimentos ainda estavam lá e cada vez mais maduros. Mas contava com jovens talentosos que só precisavam do meu voto de confiança e da minha orientação. Comecei a delegar-lhes coisas que antes ficavam, inteiramente, nas minhas mãos e na minha mente.
“ Acho que já falei demais. Espero que meu infarto, que tanto me ensinou, ensine também a você. Assim, não precisará ter o seu.
Depois que Cardoso saiu, Frederico pediu a Marluce que não permitisse nenhuma interrupção, nem lhe passasse nenhum telefonema, nos próximos trinta minutos. Ficou sentado, pensando no longo discurso do colega. Colega não. Amigo.
No dia seguinte, Helena abriu os olhos sonolenta e olhou para o relógio. Estava atrasada vinte minutos. Assustou-se e já ia levantar-se, quando Fred entrou no quarto com uma bandeja. Num canto, havia um pequeno bule com café, no outro uma pequena leiteira, duas xícaras, o adoçante e alguns biscoitos.
— Perdi o sono, meia hora antes do horário habitual. Desliguei o relógio, para você dormir um pouco mais e preparei o café da manhã. Claro que você precisará consertar algumas coisas, mas acho que dá para aproveitar algo.
Helena abraçou Fred, sem entender o que estava acontecendo. Era bom e isso bastava. E o mais incrível: Fred estava sorrindo!
01/06 e 29/06/2000.
11. A TORRE DE GRAHAM BELL (Voltar ao sumário)
Estávamos para sair de casa, quando me lembrei: “Onde está o meu celular?”
Agora era assim. Se saíssemos sem o celular, inexistente há cerca de uma década, mas imprescindível nos dias atuais, corríamos seríssimos riscos de vida. O carro poderia quebrar-se e, à noite, ficaríamos vulneráveis a ataques de assaltantes, seres alienígenas, tigres de Bengala e tigres sem bengala. Fora o etc., etc. e etc.
Quem, primeiramente, adquiriu celular, lá em casa, foi a Iveti. O “tijolão”, como o denominamos. Aliás, esse nome ficou meio comum para os aparelhos celulares mais antigos. Deve-se à grande discrepância entre o seu tamanho, bem como de sua bateria, e o dos modelos atuais. Minúsculos, cabem na palma da mão e ainda sobra espaço para uma paçoca e uma trufa de chocolate. Não me espantarei, se um dia alguém, ao fazer um tratamento de canal, solicitar ao dentista:
— Doutor, antes de fechar não dá para instalar um celular?
— Pré-pago ou pós-pago?
— Daqueles com comunicação via satélite, por favor.
A Iveti tem o maior orgulho do seu tijolão. Como todo saudosista, torce para um dos modernos aparelhos falhar perto dela. Quando isto ocorre, é a glória. Estufa o peito e diz:
— Ainda fico com o meu tijolão. Ele nunca me deixa na mão.
Esse “nunca” refere-se a uns 10% do tempo útil (ou quase inútil), pois 20% do tempo esquece-o desligado, 20% está dentro da bolsa e ela não o ouve, 30% do tempo a bateria está descarregada e 20% cai a ligação devido ao mau contato. O mais interessante é sua aversão por eletrônica moderna. Nunca quis ter um relógio digital, não programa números mais usados na memória de seu telefone, não grava mensagem na sua caixa postal, mesmo porque não a acessa, e não deixa recados nas caixas postais dos telefones alheios, quando a secretária eletrônica atende. Não é retrógrada, não. Aliás, é uma pessoa bastante atualizada, versátil e dinâmica. Mas quando se trata de eletrônica, nascem-lhes pelos por todo o corpo, crescem as unhas, os cabelos ficam enormes e embaraçados, vira a verdadeira mulher das cavernas.
O segundo e último, até agora, a adquirir o imprescindível telefone móvel, fui eu. Antes nem os fixos eram imprescindíveis. O engraçado, nesta história de celular, é como as pessoas ficam indignadas, quando nos ligam e o aparelho está desligado.
— Para quê você tem celular, se o deixa desligado?
Teriam razão quanto à sua lógica, se não fosse o direito de nos colocarmos disponíveis somente quando queremos.
Não entendem que certos eventos pedem, ou melhor, exigem privacidade, ou silêncio, ou ainda, concentração. É o caso de uma reunião mais formal, de um momento de análise crítica de documentos ou situações, para tomada de decisões também críticas, e assim por diante. Mas até a Iveti, com apenas 10% de acessibilidade não compreende isso. Certo dia, alguns funcionários da empresa onde eu trabalho estavam participando da filmagem de uma propaganda institucional. Eu estava entre eles. Nos momentos de tomadas de cenas, eu desligava o celular, obviamente. Pois bem. num dos intervalos, vi que havia mensagem na minha caixa postal. Acessei-a e ouvi o recado (inédito!) da Iveti, meio indignada:
— Onde você está, criatura? (Ela sabia onde). Já liguei quatro vezes. Não vou ligar mais. Estou indo para a casa da Célia e, de lá, irei para casa.
Lógico que há aspectos positivos no celular. Muitas vezes, ganhamos tempo, pois não precisamos ficar presos a um local, esperando uma ligação importante. Se quem nos procura, não nos encontrar lá, ligará no celular.
Esse aparelhinho, realmente, trouxe novos hábitos e chega a tornar a vida pitoresca. Na rua, nos supermercados, shopping centers, cinemas, todos os lugares, enfim, vemos quase todas as pessoas, em algum momento, com a mão na orelha. A lista da tão em moda LER (Lesão por Esforço Repetitivo) terá, em breve, mais uma lesão: a do braço esquerdo, por ficar tanto tempo dobrado. Dores no cotovelo, no bíceps, nas articulações dos dedos, e até no pavilhão auricular, etc. Deverão surgir soluções, como suporte para o celular que você prende à cabeça e o mantém na posição adequada, sem ocupar as mãos. Por que não um capacete? Aliás, poderia existir, para os motoqueiros, capacetes com celular incorporado. Talvez fosse incomodo em casa, quando ele tocasse, ter que colocar o capacete para atendê-lo.
Outra situação engraçada ocorre em locais com várias pessoas, festas principalmente, quando toca um celular. Todos enfiam as mãos em bolsas, bolsos ou os tiram da cintura, para saber se é o seu. Virou uma verdadeira torre de Babel. Não que haja desentendimento, mas, pelo menos, uma pequena confusão de reconhecimento. Seria mais prático, eu não duvido que isso ocorra logo, que os aparelhos chamassem seus donos. Imagine aquele sonzinho estridente, na fileira de trás do cinema, dizendo: Robeeeerto. Mais longe, outro grita: Apareciiiiida. Lá longe: Eleanooooor.
— Atende logo esse negócio, Eleanor, que a gente quer ver o filme, diz o impaciente espectador que não acredita que a Eleanor possa estar tão compenetrada na trama da tela que não ouve seu papagaio eletrônico se esgoelando.
Por falar em papagaio, lembrei-me de mais uma do tijolão e sua dona. Ela está adquirindo o hábito de ir deitar-se e esquecê-lo ligado. Quando acaba a bateria, ele emite um som que parece estar falando:
— Piii ru… Piii ru…
É lógico que isso não vai acontecer quando estou acordado, lendo um livro ou fazendo qualquer outra coisa. Deixa para o nobre horário do sono, de preferência o mais profundo. Já levantei várias vezes para calar o bico desse peru. E a Iveti dorme como um anjo, sem saber que seu “semovente galináceo” está a me tirar o sono.
Enfim, ele veio para ficar. Vantagens de um lado, desvantagens de outro, como tudo na vida. Levar vantagem em tudo é sonho dos menos avisados ou menos vividos.
30/06/2000.
12. DA LATA VIESTES, PARA A LATA VOLTARÁS (Voltar ao sumário)
Estamos ainda vivendo uma era em que a matéria causa um encanto, um fascínio e um domínio sobre as pessoas. Muitos poderão discordar do “ainda”, porque esta palavra nos dá a sensação, em algumas circunstâncias, de que algo, existente há muito tempo e cujo fim é provável, continua a existir mas em declínio. Consideram que a apreciação e a busca do homem pela matéria estão intensificando-se. Se considerarmos o número de aparelhos de TV em uma única casa, microondas, freezers, vídeo-games, tênis importados e um outro tanto de coisas ditas imprescindíveis, acabaremos por concordar com essa visão.
De todas essas coisas, “degustadas” pelos olhos e em nada ligadas ao perene de nossas existências, o carro parece ser o mais idolatrado. Estivéssemos, ainda, em épocas de adoração a deuses, estou certo de que erigiríamos um altar ao Deus do Movimento – o Automóvel (com “a” maiúsculo, vejam!).
As reações das pessoas diante de alguns fatos ligados a esse divino amontoado de latas são surpreendentes, a quem observa de fora. A quem as vive, são plenamente justificáveis. Eu, por exemplo, há cerca de vinte e três anos, estacionei, em uma rua de Santo André/SP, meu Opala 73, o primeiro que conseguira comprar com meu salário e ajuda do meu pai na entrada, é claro. Quando voltei, equivoquei-me em um quarteirão e, obviamente, não o achei. Veio-me uma sensação estranha de perda irreparável. Algo como um torpor subiu-me pelo corpo e o rosto ficou dormente. Devo ter ficado com os lábios brancos. Era como se minha vida esvaísse-se de mim. Depois de dar umas duas ou três rodopiadas qual mosca que perde uma asa, dei pelo meu erro, fui até o local correto e foi grande o alívio.
De outra ocasião, transitava pelo bairro do Ipiranga, na minha São Paulo natal, quando o caminhão que transitava ao meu lado deu uma ligeira mastigada no meu paralama dianteiro direito. Dei um soco de raiva no volante e desci bravo. Dirigi-me irritado ao motorista do caminhão, embora não quisesse brigar. O coitado, que era do interior e, provavelmente, com receio das histórias de crimes no trânsito de São Paulo, que via pela TV, ficou apavorado. Justificava-se trêmulo. O sangue abaixou e voltei à lucidez. Disse que fosse embora. Felizmente, o bom senso, ou sei lá o quê, mostrou-me o ridículo ou o trágico em que poderia envolver-me e parei. Mas, no primeiro lampejo pós-batida, senti como se tivesse sido aviltado, como se a coisa mais importante da minha vida tivesse sido destruída ou arrebatada de mim.
Numa outra situação, em que ministrava a dita psicologia portuguesa em meu filho, meu cunhado procurou alertar-me. Citava um caso que vira, naqueles dias, sobre um garoto de rua que riscara o carro de um determinado cidadão. Este, indignado perante a ofensa ao seu veículo, teria batido repetidas vezes, na mão do menino. O trauma físico teria causado ferimentos graves, seguidos de gangrena e suas conseqüências. Até hoje, não sei se o fato foi verídico ou criação de meu cunhado para despertar o meu bom senso. Não era de seu feitio inventar coisas assim. E de qualquer forma, não me espantaria se descobrisse que o fato, realmente, se dera. Somos muito impressionados pela figura do automóvel, talvez pelo seu alto valor. Mas e o valor do ser humano? Ou o valor das relações entre as pessoas? Costumamos dizer que são incomensuráveis. Assim o consideramos de fato? Se é dessa forma que se dá, porque não agimos como se valessem mais que um veículo, qualquer que fosse seu preço (que é finito e, logo, comensurável)?
Por que teimamos em esquecer que o carro é nada, perto do ser vivo, dotado de inteligência, sentimentos e outras coisas até mais importantes que esses atributos?
É o apego material que nos inebria, atordoa e tira o bom senso. Recentemente, por exemplo, vi em uma revista de grande circulação, matéria em que apresentava-se uma roupa com valor igual ao de um apartamento. Lembrei-me de algumas cenas, mostradas pela TV, de aviões despejando alimentos, em um país da África, e as pessoas a correr para colhê-los, grão a grão, do chão. Como pode alguém, enquanto ocorrem situações como essas ou enquanto pessoas moram debaixo de pontes e viadutos, comprar uma roupa no valor de uma moradia. Será que nossa sensibilidade está anestesiada? Espero, ansioso, pelo fim do efeito da anestesia.
13 e 22/07/2000.
13. UM MINUTO (Voltar ao sumário)
Geraldo virou a esquina, apressadamente. Teria que almoçar e voltar ao escritório até as 12h30, devido a uma reunião com seu principal cliente, que seria fundamental para o futuro de sua empresa de publicidade. Olhou seu relógio que indicava três minutos após o meio-dia. Vinte e sete minutos apenas. Esse era o tempo que teria para caminhar três quarteirões até o restaurante de comida a quilo, tomar a refeição e voltar os três quarteirões. Daria tempo, se nada o estorvasse.
— Um trocado, para alimentar meu filho, moço. O pedido vinha de uma pobre mulher, de olhar surrado pela própria miséria, coração amargurado por ser o pacote indesejável que todos os dias estava no caminho dos bem trajados usuários daquela rua, centro de grandes escritórios.
— Não tenho, disse rapidamente Geraldo, preocupado com o ouro de seus minutos.
A mulher abaixou a cabeça. Não sabia se sentia raiva ou pena. Raiva do rapaz, por ver a desmedida mentira de sua resposta. Pena por ter certeza de que o coração daquele moço tinha espaço apenas para seu mundo, que talvez fosse árido e solitário. Raiva, por não ter tido a oportunidade que ele teve de estudar e trabalhar. Pena de seu filho, que, aos dois anos de idade, dormia em seus braços, não sabia se de inanição ou de cansaço, pelo movimento ruidoso e indiferente à sua volta.
A alguns metros de distância, Geraldo, numa rápida virada de cabeça, viu que uma senhora, beirando os cinqüenta anos de idade, aproximou-se da mesma mulher e abaixou-se. Viu quando lhe deu um pacote com algum lanche e um copo de refrigerante. Ajeitou um pequeno cobertor sobre a criança, passou a mão pelo rosto da mulher, enxugando-lhe duas lágrimas tímidas, e sorriu-lhe com bondade. Passou carinhosamente a mão pela cabeça do garoto, que acordou meio desnorteado e ficou feliz ao ver o pacote e o copo. A mãe sorriu agradecida.
A senhora levantou-se e entrou no escritório onde trabalhava Geraldo. Era a sua sócia.
Geraldo olhou o relógio novamente. Eram 12h04. Continuou rapidamente e, quando chegou ao escritório de volta, ainda faltavam cinco minutos para o horário da reunião.
O cliente chegou, logo depois. Ao final de duas horas, após os habituais entendimentos, desentendimentos, esclarecimentos, pressões, concessões e negociações, o encontro teve fim, com ambos os lados satisfeitos com os resultados obtidos.
Quando Geraldo estava só com sua sócia, perguntou-lhe:
— Clarice, você não se alimentou?
— Mais do que possa imaginar.
— Como assim? Você disse que iria comprar um lanche e eu vi quando o entregou a uma mendiga. Aliás, já que iria comer lanche, não sei porque não pediu à secretária para comprá-lo.
— Meu querido Geraldo, em primeiro lugar, escolher eu mesma meu alimento é um prazer do qual não abro mão, mesmo que seja um simples sanduíche. Em segundo lugar, quando você vai aprender que os olhos vêem, mas é o coração quem de fato enxerga? O lanche iria sustentar meu corpo por algumas horas, mas o olhar agradecido daquela mãe irá alimentar-me para sempre. A sua fome e a de seu filho ficariam em minha memória, perguntando que tipo de ser humano sou eu. Hoje e todos os dias, eu tomei um bom café da manhã e terei um bom jantar. O que você acha que aquela pobre mulher teve ou terá? Veja também você o alto rendimento, em termos de tempo, que esse alimento extra-físico, que eu recebi, teve. Quanto tempo eu despendi com aquela mãe e seu filho?
Geraldo lembrou-se que, por coincidência, havia consultado o relógio antes e depois do fato e respondeu:
— Para ser exato, um minuto.
— Pois é. Como eu disse, tive algo que durará para sempre e o recebi em apenas um minuto. Pense nisso. Há minutos que são impagáveis e há horas que são dispensáveis. Depende de como os utilizamos. Não que devamos agendar a nossa vida, o tempo todo, minuto a minuto, mas há momentos em que precisamos reavaliar nossas prioridades. Talvez o agradecimento maior da mulher não tenha sido pelo alimento que lhe dei. É claro que ela precisa disso, mas percebeu que meu coração a enxergou e, por um minuto, ela foi alguém importante para mim.
— E meus olhos mal puderam vê-la por dez segundos, disse Geraldo, com tristeza.
05/08/2000.
14. CL VASSOURAS (Voltar ao sumário)
Segunda-feira. Mais uma semana tinha início, na CL Vassouras Ltda. CL de Chão Limpo. A fábrica começara suas atividades cinqüenta anos antes, quando produzia espanadores. O nome, então, era outro. Com o passar do tempo, a produção de vassouras passou a fazer parte dos negócios da empresa. A atividade cresceu, transformou-se na principal linha da fábrica e o nome foi mudado. Hoje, fabricam-se vassouras apenas.
Roberto, o engenheiro de produção, estava preocupado e andava meio irritado. Preocupado com a falta de diversidade da CL Vassouras. Irritado com a onda de comissões que a assolava, de uns dois anos para cá. Haroldo, um novo diretor e filho do proprietário, entendia que boas soluções só poderiam sair de várias cabeças. Assim, nomeava comissões para tudo.
A irritação de Roberto foi redespertada, quando ele passou pela sala de reuniões e ouviu, através da porta entreaberta, o gerente geral dizendo:
— Será importante, todas as vezes que chegar uma visita, termos alguém que conheça bem o nosso processo, para recebê-la. A melhor pessoa para fazer isso é o Roberto.
Tratava-se de reunião da Comissão de Imagem.
— Tenho uma idéia, disse o gerente de marketing. Realmente, o Roberto é bastante competente e tem, inclusive, muita facilidade para falar com grupos e até dar entrevistas, mas poderíamos pensar em outras alternativas e, também, em estratégias de ação. Por que não fazemos um brain storming, para levantá-las?
Roberto foi para sua sala de cara fechada. Ele sabia que cuidar da imagem era importante. Assim como sabia que comprar de forma adequada também o era. Havia uma Comissão de Compras. Igualmente importante era ter funcionários que se sentissem bem na fábrica. Comissão da Qualidade de Vida no Trabalho. E que eles se relacionassem bem. Comissão de Eventos Sociais. E tantos outros fatos de suma importância com suas respectivas comissões. Como o número de funcionários não era tão grande assim, vários deles faziam parte de mais de uma comissão. Roberto, mesmo, estava em quatro. Isso lhe tirava o humor com freqüência. Eram inúmeras as reuniões, a produção de documentos, as visitas a outras fábricas para ver como tratavam os mesmos problemas, etc. O tempo que sobrava para sua atividade fim era exíguo.
Estava no corredor, nesse estado de espírito, quando Haroldo passou e notou seu abatimento. Chamou-o até sua sala.
— Tenho notado um certo ar agitado ou preocupado em você. O que está ocorrendo?
— Haroldo, eu fui treinado para procurar soluções, as melhores possíveis, na área técnica e gosto de fazer isso. Acontece, que de uns tempos para cá, só o consigo fazer em minha casa, ou na fábrica, mas nos finais de semana ou após o expediente, à noite.
— Bem, trabalhar além do horário é meio comum para certas profissões e graus de formação. Acho um tanto quanto estranha sua colocação.
— Se no horário normal eu estivesse trabalhando na minha especialidade e o tempo não fosse suficiente, não me incomodaria em complementá-lo. Porém, o que acontece é que durante o expediente eu fico envolvido em reuniões sucessivas e infindáveis e só faço a minha atividade fim quando já estou cansado, em horários ou dias em que deveria estar me refazendo para uma semana mais produtiva. Creio que isso não seja honesto com minha família, comigo e nem com a empresa, uma vez que, estando esgotado, não lhe dou o melhor do meu potencial.
Roberto sabia que estava pisando em terreno minado, já que a idéia das comissões era de Haroldo, mas achava mais digno expor suas reais preocupações, do que inventar uma mentira. Além do mais, poderia estar dando alguma contribuição para a excelência ou sobrevivência da CL.
— Objetivamente, o que você acha que está errado?
— Será que precisamos de tantas comissões para resolver nossos problemas? Além disso, será que estamos com o foco correto?
— Muito bem, Roberto. Você está tendo a presunção de ter todas as respostas. Diga-me, então, o que seria melhor fazermos. Quais os problemas atacar e como, já que não quer as comissões, que não só possuem maior representatividade, como também reúnem maior número de cabeças procurando as soluções.
A situação estava muito tensa e o desentendimento final parecia inevitável, mas Roberto entendia que entrara num caminho sem retorno. Portanto, não queria e não tinha como recuar.
— Eu não disse, em momento algum, que tinha todas as soluções. A política de se permitir que alguém fale de um problema somente se tiver uma proposta tem um lado positivo, que é impedir a choradeira negativista. Por outro, inibe que alguém exponha um problema que detectou, para o qual não tem solução, mas que outra pessoa possa tê-la. Apenas vejo que nossos concorrentes estão colocando produtos novos no mercado, melhores e mais baratos e eu, que tenho a responsabilidade de responder a isso, não estou concentrando minhas melhores energias na resposta. Só posso ter boas idéias se me debruçar sobre elas. Às vezes, nem assim elas surgem. Se me afasto das tentativas, então, adeus.
Roberto queria dizer a Haroldo que não era inimigo da empresa. Muito pelo contrário. Dizia tudo aquilo porque queria vê-la na vanguarda. Arriscou, ainda:
— Será que os funcionários não conseguiriam resolver os problemas de suas áreas, em vários casos, exercendo individualmente as atividades dos cargos para os quais são remunerados? Ou trabalhando em duplas, ou mesmo em equipes, mas sem as características das comissões, que, em geral, tendem a ser burocráticas, lentas?
Tinha uma vontade quase desesperada de provar suas intenções a Haroldo, mas receava que esse desespero parecesse um pedido ao diretor para ter pena dele. Não era orgulho, mas sabia que essa forma de enfoque enfraqueceria seu ponto de vista e poria a perder uma discussão que deveria trazer frutos positivos para a empresa.
Haroldo lançou-lhe um olhar forte e agressivo e disse:
— Volte ao seu trabalho e, quando tiver algo mais concreto que essa sua vaga lamentação, venha falar comigo.
Roberto saiu com a sensação de que a conversa fora em vão. Ou pior: apenas o colocara numa situação delicada, ou mesmo insustentável.
Três dias depois, recebeu um memorandum no qual era designado para a Comissão de Métodos Gerenciais, que deveria apresentar alternativas para buscas de soluções sem o uso de comissões.
Enquanto isso, no supermercado em frente e outros, as vassouras do concorrente eram vendidas a rodo, ao mesmo tempo que as vendas da CL iam por água abaixo.
20, 27 e 31/08/2000.
15. ANGÚSTIA (Voltar ao sumário)
Alma irrequieta que te agitas, dentro desse corpo limitado e limitante. Buscas horizontes mais largos, que te permitam maiores realizações. Tentas alçar vôo, mas essa porção de matéria, surda e cega à tua agitação, prende-te ao chão. Procuras dar passos mais largos, mas as pernas que te servem têm comprimento menor que teus anseios. Almejas abraçar o mundo, mas esses braços curtos a poucos alcançam. Queres enxergar o fundo das outras almas, mas os olhos que são tuas janelas apenas vêem as cascas das pessoas. Pretendes inalar o perfume de todas as flores do mundo, mas essas narinas absorvem apenas o que está mais próximo e sentem dificuldade em captar o odor daquele que chora logo adiante.
Aquieta-te, minha querida chama. Foi-te dado este corpo que bloqueia tua ação, mas não a tua imaginação e criatividade, para que no dia da tua libertação, pudesses ultrapassar as barreiras do inimaginável. Para que fosses além do que esperam de ti e do que tu mesma pensas ser possível realizar. A dor daquele que quer mais do que pode fazer é o impulso do batalhador eterno, que vê as flores mas não esquece os espinhos. Que aprecia um e quer mitigar os sofrimentos da pele arranhada pelo outro. Que entende que a coexistência desses dois lados da rosa é a dualidade sábia da natureza, que nos aceita e nos ensina. Natureza que nos mostra a beleza do prazer emoldurado pela cautela.
Dorme tranqüila, para que a energia suave, restauradora e reequilibrada desta noite, possa ser a tua força de amanhã, que te capacitará a ultrapassar os limites de hoje.
27/08/2000.
16. FORTES E FRACOS (Voltar ao sumário)
Novamente sábado. Ronaldo comprazia-se em suas atividades com plantas. Os fins-de-semana tornavam-se cada vez mais agradáveis. Não por serem vistos como períodos de fuga do trabalho, mas porque estavam tornando-se cada vez mais aprazíveis o ambiente doméstico e o convívio familiar.
De uns tempos para cá, Ronaldo começara a cuidar de plantas. Não a manutenção do jardim da casa, com seus diversos afazeres inerentes, mas o nascimento de novas plantas e a recuperação daquelas que não andavam bem das pernas. Ou seria das raízes?
Preparar o vaso, garantindo uma boa drenagem, providenciar o solo adequado, deitar-lhe as sementes, cobri-las, como quem ajeita o cobertor de um filho e, finalmente, prover o arranjo com água, diariamente. Isso tirava-o de suas preocupações e tensões diárias. Porém, o mais importante, para ele, era o prêmio ao final de alguns dias, quando uma tímida folhinha verde surgia de dentro do solo como que a espreitar o mundo exterior, para ver se havia segurança e poderia crescer. O milagre da germinação sempre produzia um sorriso em Ronaldo, que chamava toda a família para ver. Primeiramente os filhos, a quem queria transmitir o respeito pela natureza, o amor pelos seres vivos e o zelo pelos recursos que os viabilizam. Pretendia, também, que entendessem que essa tricotomia não é de fato uma divisão, mas sim uma composição harmônica que viabiliza o universo.
No momento, estava trabalhando no ressurgimento de uma planta carnívora que seu filho adquirira. Nos primeiros dias, a novidade mantinha o jovem em torno do pequeno vegetal. Mas, por decepcionar-se, talvez, com o fato de que a planta não pulasse sobre os insetos que passavam por perto, nem destroçasse lagartixas com mandíbulas afiadas, o entusiasmo desvanecera-se. Como resultado, ela ficara sem água, murchara e, aparentemente, estava morta. Ronaldo resolveu, como última tentativa, fornecer-lhe água, diariamente.
Passados alguns dias, um ponto verde surgiu no centro do pequeno vaso. Ronaldo preparou um vaso maior e fizera o transplante. A planta revigorara-se e reagia bem. Estava ele cuidando dela, quando sua esposa fez entrar Carlos, seu amigo, que acabara de chegar.
Carlos quis saber o que estava fazendo e ele explicou. O amigo estranhou o esforço.
— Mas uma planta desse tipo e tamanho deve custar uns R$ 2,00.
— Eu sei.
— E acha que vale a pena? Quantas horas você gastou com isso?
— Vou responder-lhe, mas antes gostaria de relatar um fato, talvez de pequena importância, que me ocorreu noutro dia. Pode parecer não ter ligação com sua pergunta, mas eu acho que tem. Estava me dirigindo ao meu carro, no estacionamento do shopping, quando vi uma garotinha, com cerca de dois anos, toda feliz, ensaiar uma corrida. Minha reação foi entrar em alerta. A família estava despreocupada, talvez por ter uma visão mais global que a minha. Olhei, rapidamente, para trás, para ver se algum carro estava vindo e já me preparava para segurar a criança.
— A família poderia não gostar.
— Eu sei, mas acho que me preparei para fazer, instintivamente, naquele dia, o que faço agora, conscientemente: agir pela continuidade da vida.
— Ora, Ronaldo. Lá se tratava de uma criança. Aqui, é apenas uma planta que não mudará em nada o desenrolar das coisas.
— É possível que você tenha razão, quanto ao equilíbrio geral. Mas, e quanto ao sentimento íntimo meu, que deve ser treinado, mais e mais, para valorizar a vida que se manifesta em diversas formas? O que eu penso, meu caro, tanto no caso da criança quanto no dessa plantinha, é que a vida é responsabilidade de todos e a vida frágil é a responsabilidade maior do forte. É claro que a dimensão não é a mesma. Mas um cuidado não exclui o outro.
— E aos fracos, que papel que cabe?
— Cada um deles precisa saber que há alguém mais fraco, cuja existência ou sucesso pode dele depender.
— E ao mais fraco dos fracos?
— Resta o papel de lutar pelo mais fraco de todos, que é ele próprio, para ser um justo merecedor da ajuda que lhe dão. Assim agindo, logo deixará para trás a posição de último e a este poderá auxiliar. Como pode ver, é o ciclo dinâmico da vida de construção, ao qual podemos todos aderir, não sem lutas, mas numa plenitude de prazer difícil de ser qualificada de tão sublime e tão ampla que é.
Ronaldo poderia ainda dizer que o Sol, quando aquece a sequóia gigante, não deixa sem calor a pequena margarida, mas achou melhor deixar para Carlos descobrir isso por si só.
10/09/2000.
17. PEQUENOS VALIOSOS (Voltar ao sumário)
A semana começara não muito diferente das demais e a segunda-feira tivera suas atividades profissionais retomadas, assim como para as crianças na escola e a Vovó Marina, nos afazeres da casa. Aos setenta e um anos de idade, ela colaborava, bravamente, para o bom andamento da rotina da família.
Ao final do expediente, Iveti e eu tínhamos, ainda, quatro tarefas a serem executadas. Primeiramente, passamos pela farmácia de produtos naturais para comprar as cápsulas de lecitina de soja – munição para a infindável batalha contra o teimoso alto nível de colesterol – e ginseng para fazer o coração andar no ritmo (meu médico não acredita nisso, mas meu coração e eu sim). Engraçado como eu não precisava dessas coisas, há cerca de trinta anos.
Adquiridos os aditivos que fariam o motor andar melhor, fomos à Universidade Federal de São Carlos – a UFSCar – onde deixamos os nossos resíduos recicláveis. Bonito, não? Os tempos modernos enriqueceram nossa língua com alguns termos técnicos apropriados e elegantes.
Saímos da UFSCar e fomos ao shopping para comprar duas joelheiras, pois a prática da bicicleta ergométrica, também para abaixar o colesterol, estava colocando meus joelhos na fila dos carentes de assistência médica. Garanto que, no tempo citado há pouco, também meus redondinhos não se apresentavam com esses desgastes. Aliás, até o nome da rótula desgastou-se e foi alterado para patela.
A última tarefa seria buscar o Bruno na casa de minha sogra, a Vovó Ignez, para onde ele costuma ir após a sessão de musculação no clube. A Iveti diz que ele está ficando “sarado” – novo termo para quem está adquirindo forma atlética. Eu também estou precisando ficar “sarado”, da coluna, dos joelhos, do ombro, da idade. Ei, espere aí! Idade não é doença. Aliás, como diz a Iveti, o único meio de não ficar idoso é morrer jovem.
Como fosse cedo para apanhá-lo, ficamos circulando, sem muito compromisso ou pressa, pelo shopping. Lembramo-nos de uma fita de vídeo, que deveria ser devolvida à locadora e ainda estava em casa. Fomos para lá, pois o Bruno ainda não ligara para o nosso celular, para informar que já estava na casa de sua avó.
Esses momentos despreocupados, diferentes da rotina corrida, foram muito agradáveis, pois a noite estava muito aprazível. Em geral, essas tarefas, exceto pegar o Bruno, seriam feitas na hora do almoço, debaixo de calor e da carranca do relógio. Como nessa noite não possuíamos, o que era raro, nenhum compromisso, transferimo-las para o final do dia. Nessa serenidade e temperatura amena, relaxamos e passei, suavemente, a mão pelos cabelos da Iveti, o que não fazia havia algum tempo.
Aliás, o tempo, com o nosso consentimento e cumplicidade, tem sido o maior vilão de nossas vidas. Faz com que esqueçamos o grande valor de pequenos detalhes. Acostumamo-nos não notar mais algumas coisas que requerem de nós não mais que um pouco de atenção. Dias atrás, por exemplo, redescobri, após vinte e sete anos de convívio, a beleza das mãos de minha esposa. Comecei a olhar seus dedinhos delicados, que estavam ali o tempo todo, à espera de minha observação. Quanto custou redescobrí-los? Nada. Quanto valeu? Tudo.
Aos quarenta e nove anos, começo a sentir a vida cada vez mais vibrante e ao mesmo tempo mais terna. As pessoas valem mais. Seus gestos são mais significativos. Seus sorrisos mais acolhedores. Suas buscas são também minhas buscas e fico feliz em saber que podemos procurar juntos, embora, muitas vezes, por caminhos diferentes. As pessoas mudaram? Com certeza, já que agregamos valores ao nosso valor intrínseco a cada segundo. Mas será que foi essa mudança que me fez vê-las de forma diferente, melhor. Creio que não. Acredito mais que o meu modo de ver e sentir o mundo é que está a alterar-se. Os anos aguçam nossas percepções e as pessoas que nos cercam ajudam-nos a aprender coisas novas.
Momentos breves, porém valiosos, como o desta noite, podem multiplicar-se se lhes dermos chance. É apenas uma questão de prioridade. E o que pode ser mais prioritário que nossas vidas e nossas relações?
11/09/2000.
18. O CORTE PROFUNDO (Voltar ao sumário)
Doeu quando Ronaldo viu a árvore no chão. Conhecia apenas treze anos de sua vida, mas parecia uma velha amiga. Daquelas que se tem desde a infância. Por isso que o baque no chão, mesmo não presenciado, estremeceu mais dentro dele que no solo. Por isso que o estrondo não ouvido tivera o apelo de um grito de adeus. Por isso que a marca que fizera sobre o gramado ficaria menos indelével que em sua alma.
O gigantesco angico do cerrado, com diâmetro do tronco superior a sessenta centímetros e altura por volta dos dezoito metros, sobrevivera a várias ameaças. A primeira foi do pedreiro, que perguntou a Ronaldo se queria que a pusesse abaixo. Amante do verde, ele foi veemente na negativa.
— Ela vai emporcalhar tudo: telhado, calhas…
— Eu sei, mas veja quantos terrenos à nossa volta possuem uma árvore como essa. Nenhum. Não, pelo menos, nesse porte.
Parecia profecia o que dissera o pedreiro. Várias vezes a água espalhou-se pela sala de televisão, pelo hall de entrada e pelo piso que compreendia as salas de estar e de jantar. O sinteco deste último foi completamente danificado. Ronaldo, porém, já se programara para subir três a quatro vezes por ano no telhado, para fazer sua limpeza e das calhas. Duas vezes no outono, quando suas folhas compostas bipinadas caíam em abundância (e haja abundância) e duas vezes na primavera, quando suas flores em formato de buchinhas esféricas faziam seu trabalho de entupimento. Vez ou outra, Ronaldo distraía-se e atrasava a limpeza. Se a chuva vinha, o estrago era inevitável. Certa vez, chegou a causar danos no aparelho de TV.
Nada disso o desanimava. Logo que a chuva terminava, subia e fazia a limpeza. Foi nas primeiras vezes em que essas pequenas inundações ocorreram que o angico esteve, novamente, em risco de ser derrubado. Mas Ronaldo manteve-se firme.
Um dia, porém, uma ameaça um pouco maior começou a sinalizar que as coisas poderiam tomar rumos diferentes.
Durante uma tempestade, um galho grosso veio ao chão. Todos ficaram preocupados com o que poderia ter acontecido se tivesse atingido uma pessoa.
— Mas ninguém fica lá fora, durante uma tempestade, disse Ronaldo, querendo convencer mais a si mesmo que aos demais.
— E se um galho cair sobre a casa?
— Poderá quebrar algumas telhas, mas eu troco.
— E se a árvore cair sobre a casa? Perguntou sua esposa.
— Ela é muito forte. Não cairá.
Ele não tinha certeza disso, pois não conhecia o sistema de raízes do angico e nem era especialista no assunto. De qualquer forma, como todos o queriam em pé, parece que aceitaram a argumentação, ou torceram para que fosse válida.
Meses ou anos passaram-se e incidente similar aconteceu. As discussões foram análogas e o resultado também, mas algo incomodava a família. Era uma sensação de irresponsabilidade ou de estar fingindo não ver para não ter que tomar a decisão, o que resulta no mesmo.
Assim continuava a existência do velho angico, quando certo dia, não de tempestade mas apenas vento, ocorreu uma queda de galho que não podia ser desprezada, negligenciada ou tornar-se objeto de eufemismos. Era pesado e, por ter caído de ponta, espetou-se no chão e quebrou-se. Parte ficou no chão, parte ficou em pé, como que para sinalizar os riscos maiores que poderiam advir. Por não estar chovendo, alguém poderia estar lá fora, inclusive a criança da casa, a nossa Maria Angélica, que contava pouco menos de oito anos.
Os argumentos anteriores adquiriram a consistência e a perenidade da fumaça. Não havia mais palavras para defender o angico. Seu advogado maior estava de mãos atadas e boca amordaçada. De repente, para sua maior perplexidade, todas as amarras foram-lhe tiradas e ele foi içado à dura posição do juiz que tem o poder de decidir sobre a vida. Ronaldo teria que escolher entre dois opostos dolorosos: a extinção da vida do angico e a probabilidade de um acidente fatal com, por exemplo, sua filha. Sem falar no mesmo risco em relação ao seu vizinho.
Ele, que se habituara a colocar a semente na terra e esperar ansioso pela sua germinação, teria que determinar que aquela opulência verde beijasse o solo em agonia. Vacilou alguns dias, como a esperar uma idéia nova, mas ela não veio. A esposa, também pesarosa, porém mais pragmática que ele e com instinto maternal de plantão, cobrou-lhe uma definição. Ou melhor, convidou-o a decidirem juntos o que deveriam fazer. A escolha era óbvia e não havia porque esperar.
Ronaldo iniciou a tramitação junto ao órgão de proteção dos recursos naturais. Dias depois, a autorização foi expedida, juntamente com o termo de compromisso de plantar dez árvores nativas, em reposição à que seria retirada. Algumas pessoas comentaram que não era bem isso que a lei estipulava, mas Ronaldo não quis esclarecer isso. O angico merecia.
Dois profissionais foram contratados e no dia agendado, devido à chuva da véspera, o trabalho não pode ser realizado. A pena foi adiada por uma semana. Desta vez, apesar do céu cinzento, não houve qualquer fato de última hora que salvasse a velha árvore. O serviço começou cedo e durou todo o dia. Por estar em meio a construções, não era possível derrubá-la inteira. Foi necessário descê-la aos pedaços. Um último gesto de truculência contra aquela que abrigara pássaros e seus ninhos e também dera sombra à família.
Quando chegaram à casa, no final do dia, Ronaldo e sua esposa encontraram a velha amiga no chão, em pedaços. Era uma cena típica de destruição. Desorganização de um organismo que a natureza levara décadas para organizar. Em um segundo, o ser humano decidira e em um dia executara o caminho inverso. Ronaldo estava assustado com essa realidade. Um nó instalou-se nas gargantas de ambos e lá permaneceu por toda a noite e vários dias consecutivos. Carregariam consigo, para sempre, a pergunta: “Será que ela, realmente, cairia em cima de nós algum dia?”.
12/09/2000.
19. DUAS POMBAS CINZAS (Voltar ao sumário)
Os dias após festas eram de trabalho duro para Eva. Ela chegava ao emprego cedo, como em todos os dias, e encontrava aquela pilha enorme de louça suja: pratos com restos de comida salgada, pratinhos com restos de cobertura de bolo, bandejas com salgados que alguém pegou e largou, talheres, copos com ou sem restos de bebidas, mas todos sujos e outras coisas mais. O chão, então, como diria um antigo ministro (vejam vocês!), impisável. Daqueles que você põe o pé e sai com um som manco pela casa: chilec, chilec, chilec, chilec.
Nos demais dias, era aquela rotina agonienta de lavar a louça do café da manhã, limpar o chão dos quartos e hall, arrumar os quartos, limpar os banheiros, tirar o pó dos móveis, lavar a garagem e a varanda, lavar a frente da casa…
Era uma série de atividades que pouco acrescentavam à vida de Eva, a não ser exercitar sua paciência, ou, quem sabe, sua aceitação das coisas cuja mudança estava fora do seu alcance.
Porém esse dia-a-dia sem perspectiva ou motivação não era o que mais moía o ânimo da moça, que beirava os trinta anos, mas sim o drama de sua família. Perdera o pai quando criança, de forma trágica. A mãe sempre tivera dificuldade para trabalhar, embora o fizesse quando possível, devido a problemas físicos. Seus irmãos, com poucas qualificações para o mercado de trabalho, tinham empregos que não duravam muito. Assim, há cerca de oito anos, bom ou ruim, motivador ou não, o emprego de Eva era a única garantia financeira da família, trazendo-lhes, obviamente, parcos recursos.
Juntou-se a esse quadro financeiro uma ação de despejo que levou a um acordo pago por Eva e o antigo fiador, em partes iguais. A situação, no mínimo, era desesperadora. O sorriso de Eva tornou-se raro. Sua voz, que sempre transmitira a paz, apesar dos pesares, ouvia-se menos. Chegou a ter dúvidas em relação a Deus. Seus patrões procuravam ampará-la, onde possível, mas o drama extrapolara até a sua capacidade de ajudar.
Certo dia, o dono da casa estava tomando café, na cozinha, após o almoço, enquanto Eva lavava a louça. A janela em frente à pia estava aberta e ele ouviu-a dizer:
— Que bonitinho!
Foi verificar o que ela estava vendo. Era um casal de pombas, que havia pousado sobre a grama. Eram cinzas, como a vida de Eva, mas trouxeram ao olhar da moça um brilho, que havia muito não era visto. Ronaldo, seu patrão, viu a alegria voltando aos seus olhos, seu antigo sorriso reapresentava-se. No deserto de sua vida dura, um breve oásis surgia.
Seus problemas, é claro, continuavam do mesmo tamanho, o vendaval com a mesma intensidade, mas o muro estreito, sobre o qual caminhava Eva, alargava-se naqueles breves minutos, um pouquinho que fosse, para que ela se andasse com mais segurança. Talvez tivesse uma fagulha de otimismo. Talvez sentisse o fim de sua dívida com o antigo senhorio chegar mais rapidamente. Tudo isso, simplesmente, porque alguém (Deus?) permitiu ou fez com que duas pombinhas pousassem na relva à sua frente. Talvez ela voltasse a acreditar nas possibilidades maiores da vida, estando aliada a Deus. Talvez.
11/10/2000.
20. DA RAZÃO AO SENTIMENTO (Voltar ao sumário)
Ignácio pegou sua maleta de ferramentas e foi ao setor administrativo verificar o que estava ocorrendo com o sistema de ar condicionado daquela área. Já era a quinta vez, depois de extinta a garantia, que ele era chamado para reparar a mesma máquina. Depois de uma hora de trabalho concentrado, viu quais peças deveriam ser trocadas. Preencheu a requisição e encaminhou-a ao setor de compras. Duas horas depois, era chamado pelo gerente administrativo.
— Ignácio, o que é isso? Cada vez que essa máquina pára, você vem com uma lista nova de peças. Parece aqueles técnicos de TV que consertam, mas deixam um defeito engatilhado para o aparelho retornar.
Ignácio cerrou os dentes, pensou três vezes, antes de deixar que a raiva tomasse conta da situação e disse:
— Onório, essa máquina passou pela assistência técnica nove vezes, durante a garantia. Isso já indicava que a coisa não era boa. Saiu da garantia e os defeitos continuaram.
— Mas esse é um dos melhores fornecedores de ar condicionado!
— Pode ser, mas essa máquina que foi entregue não é boa.
Onório foi quem mais lutou para aprovar aquele fabricante. Recebeu o comentário como pessoal e contra-atacou em altos brados.
— Eu acho que o que está faltando aqui é competência.
O sangue de ignácio subiu às alturas e o auto-controle abriu mão da peleja.
— Concordo, plenamente. Falta competência para comprar ou para gerenciar, ou as duas coisas juntas. Se não faltasse, essa porcaria não estaria aqui.
— Você está demitido.
Ignácio perambulou o resto da tarde. Viu vitrinas que não enxergava ouvia vozes que não escutava. Um amargor infindo substituira o sangue de suas veias.
Foi para casa no horário habitual, pois não tinha coragem de contar à esposa o ocorrido. Vinte anos de empresa! Nem isso fora considerado, quanto mais a razão de seus argumentos.
Da mesma forma, no dia seguinte saiu cedo de casa e voltara à noite.
No terceiro dia, desnorteado, de alma doída, foi falar com um amigo, Clemente, que habitualmente era ponderado, procurando ver todas as facetas de uma situação para não ser injusto com ninguém, nem tomar nenhuma decisão precipitada. Após ouvir o relato do que se passara, perguntou:
— Como estão sua esposa e seus filhos?
— Estão bem.
— Como está sua saúde?
— Bem, também. Desculpe-me, Clemente, mas eu lhe conto meu drama e você me vem com perguntas sobre a família e minha saúde. Parece que nem estava ouvindo.
— Pelo contrário. Eu estava tentando lhe mostrar que você perdeu o emprego, não sua vida. Você ainda tem uma família, que, dependendo do que você plantou na sua casa, irá apoiá-lo, nesse momento duro. O amigo tem, também, saúde e disposição para continuar a trabalhar. E um belo curriculum.
— De que adiantará tudo isso, que Deus me perdoe, se não aparecer um emprego?
— Você está há três dias desempregado e, sem procurar nada, já acha que não há esperanças. E mesmo que não surja um emprego, será que, com sua experiência em manutenção, não conseguiria montar seu próprio negócio? De repente, esse pode ser o grande momento de sua vida. Continua válida a afirmação de crise e oportunidade são os dois lados da mesma moeda.
— Talvez você tenha razão, mas uma outra afirmação válida é a de que falar é fácil, fazer são outros quinhentos. Pode-se dizer o mesmo de sonhar.
— Meu amigo, a esperança, ou se quiser pode dizer a fé, é o que movimenta nossa vida. Você só sai da cama, de manhã, porque acredita que vai conseguir cumprir suas tarefas do dia. As planejadas e as não planejadas. Só compra um carro com financiamento porque acredita que vai poder pagar. Só sai para rua porque acredita que será capaz de se livrar de atropelamentos e assaltos. Só aceita um emprego porque acha que dará conta do recado.
“Portanto, meu caro, essa é a hora em que você mais precisa acreditar, principalmente em você.
“Esse foi o primeiro ponto de nossa conversa. O segundo diz respeito ao fato em si, que lá ocorreu. O que você faria se os papéis estivessem invertidos?
Ignácio sentiu o impacto da pergunta. Não havia parado para pensar nisso. Era muito honesto para não usar de plena sinceridade com o amigo, principalmente na situação em que se encontrava.
— Eu teria demitido, também.
— Por quê?
— Praticamente, eu desafiei meu chefe.
— E por quê fez isso?
— Não sei o que me deu. Não costumo ser assim. Aliás, nunca fui. Sempre soube do meu lugar, o que posso e o que não posso fazer ou dizer.
— O motivo é simples, Ignácio. Sua razão sabe o que deve fazer, mas, quando falou tudo aquilo, eram seus sentimentos que estavam agindo. E o pior: responderam ao primeiro impulso.
— Acho que foi isso. Espere aí. Isso quer dizer que ter ou agir pelos sentimentos não é bom. Essa idéia não me agrada.
— E com razão, pois ela não é correta ou, pelo menos, não é completa. Acontece que sentimento e razão caminham juntos. A razão modela os sentimentos, porém são estes que dão alma àquela.
A conversa com Clemente diminuir o peso sobre os ombros de Ignácio. Voltou para casa e contou à esposa e aos filhos sobre a perda do emprego. Todos uniram-se num abraço em torno do pai e marido, que trazia os olhos úmidos, e em meia hora toda a família estava ocupada a planejar a redução de gastos e a recortar jornais em busca de emprego para Ignácio. A idéia da oficina própria também não estava descartada.
11/10/2000.
21. SORRISO DO SOPÉ (Voltar ao sumário)
A luz piscou três vezes, no alto da montanha. Ela não tinha um nome especial, para os moradores do local. Era apenas a montanha, ou A Montanha, para aqueles que gostavam de dar-lhe um nome próprio ao invés do substantivo comum.
Marieta esfregou os olhos como que a limpá-los da sonolência e prestou atenção. Mais duas piscadas. Alarmou-se por dentro, mas conteve-se por fora, pois estava só e o espalhafato não teria platéia. Foi ao telefone e ligou para sua comadre:
— Você viu, Justina?
— O quê, Marieta?
— No alto da montanha. A luz.
— Que luz, mulher? Já é uma hora da manhã e a única luz que estou vendo é a do abajur, que acendi assustada com seu telefonema, depois de tatear o criado-mudo e jogar no chão o despertador e o copo d’água com a dentadura.
— Eu sei que é tarde. Desculpe. Tava muito quente quando fui deitar e dormi com a janela aberta. Esfriou um bocadinho e eu fui fechar a janela. Foi quando vi uma luz piscar lá no alto da montanha. Achei que era porque eu estivesse meio que acordando de um sonho ou com os olhos atrapalhados por causa do sono. Esfreguei as vistas para ter certeza. Piscou de novo. Três vezes na primeira e duas na segunda.
Justina começou a interessar-se, chegada que era a umas fantasias.
— Fica aí, comadre. Não saia. Vou chamar o Arlindo e nós vamos até aí.
Justina acordou o marido, já com fortes sacudidas de quem está assustada e doidinha de vontade para ter assunto por um mês.
— O que foi, mulher? Ficou maluca?
— A comadre está com problema. Viu um barulho esquisito no alto da montanha e uma luz forte que piscou umas dez vezes. Uma delas, na direção da casa dela. Está com medo que tenham descoberto, seja lá quem for, que ela estava observando.
— Você sabe que a comadre é meio impressionada com as coisas. Você também é um pouco alarmada. Tem certeza de que é isso mesmo que está me contando?
— Pelo menos foi o que ela me falou. A coitadinha tava até chorando no telefone.
Arlindo viu que a situação não chegaria a fim algum se não fosse até lá. Além disso, e se fosse verdade?
A campainha da casa de Marieta tocou, ela abriu a porta e os dois entraram.
— E aí, comadre? Que está acontecendo?
— Eu estou com medo de ir até a janela.
— A luz era mesmo forte? E como era o barulho?
— Se era forte, não sei dizer, mas não sei de que barulho o compadre está falando.
Arlindo olhou feio para Justina.
— Ah, sei lá. Eu entendi que era forte e que tinha barulho. Também, se não falasse assim, você não vinha.
Arlindo quase materializou o pensamento de estar com as mãos em volta do pescoço da mulher.
Conteve-se e resolveu tomar a iniciativa para acabar com aquilo. Abriu a janela e observou por alguns minutos. Nada. Já ia fechar a janela quando viu a luz piscar. Duas vezes. Não era forte. Nem era fraca. Se fosse uma lanterna de mão, não daria para ver àquela distância, achava ele. Piscou mais três vezes.
— Que diabo é aquilo? Pode ser algum código, pensou Arlindo.
Vasculhou seu campo visual em busca de outra luz que respondesse àquela. Nada. Ir lá em cima ver o que era, nem pensar. Se fossem bandidos, sincronizando alguma ação?
— Justina, peça licença à comadre e ligue para o Valdemar. Mas veja lá o que vai dizer. Vou ficar aqui de olho, para ver se alguém responde.
Valdemar era o delegado, que tinha uma certa amizade com o casal.
— Dr. Valdemar, eu e o Arlindo estamos aqui na casa da Marieta e está uma confusão no alto da montanha! Luz de todas as cores, piscando sem parar. O Arlindo acha que pode ser até E.T. Pediu para o senhor vir para cá, se puder.
O delegado concordou e, antes de sair, recomendou à sua esposa, D. Cássia, que não saísse de casa. Não sabia o que era ainda, mas podia até ser coisa de E.T. Ela ficou assustada, mas ele convenceu-a de que ali era mais seguro do que na rua. Ligou o carro e foi embora.
D. Cássia não se conteve e ligou para sua amiga, D. Roberta, esposa do prefeito, Dr. Lutércio, relatando o fato, sabe-se lá com quais adereços novos.
O prefeito, ao ouvir a metade da conversa, pulou da cama e correu para trocar de roupa. Essa era a oportunidade que esperava para que o Município de Sorriso do Sopé encontrasse um lugar digno nos noticiários e no mapa. Queria armar um belo cenário. Sabia que os recursos locais eram limitados: um delegado e dois auxiliares, que foram trazidos da roça. Havia também uma força tarefa de três homens, para apagar incêndios. Ligou para o prefeito de Alcântara dos Índios, que era do seu partido, e pediu colaboração, cedendo uma agrupamento de soldados do Tiro de Guerra daquela cidade. O amigo garantiu que lá estariam em uma hora, no máximo.
A seguir, Lutércio ligou para seu secretário de gabinete, que era o quitandeiro da cidade, e disse-lhe para acionar a imprensa da capital. Antes, é claro, contou a história a seu modo.
“Só sendo quitandeiro, para a esta hora da madrugada já estar lidando com um pepino e um abacaxi desses”, pensou o secretário-quitandeiro.
Às duas e trinta, estava a maior barafunda em frente à casa de D. Marieta, que servia chá e uns pedaços de brevidade mais que amanhecida, para todos que ali estavam. Aliás, se não fosse o chá, a brevidade, seca como o solo do Saara, não desceria nem com cirurgia de esôfago. O contingente era de vinte e sete pessoas: o prefeito, seu secretário, um repórter do jornal Boca no Trombone, um repórter da emissora de rádio Voz de Alcântara (coligada da BBC de Londres, segundo seu proprietário), um repórter da emissora de TV A Capital, o delegado e seus dois assistentes (um deles esqueceu a arma em casa e o outro as balas), quinze soldados do Tiro de Guerra e seu sargento, D. Marieta, D. Justina e Seu Arlindo.
O sargento alertou:
— Pessoal, vamos abaixar a poeira porque vão acabar percebendo a gente, lá de cima.
— Sargento, com todo respeito pela sua autoridade, este é um assunto municipal e deve ser coordenado por mim.
— Desculpe, seu prefeito. O que o senhor acha que devemos fazer?
— Em primeiro lugar, ficar em silêncio. Em segundo, subir o morro em grupos e sitiar o inimigo.
— Seu prefeito, o elemento surpresa maciço é mais arrasador, se me permite.
— Está bem, sargento. O senhor deve ir à frente com seus soldados, que estão mais acostumados com o escuro. Depois, vão o delegado e seus homens, seguidos da imprensa, para registrar os fatos. Eu vou na retaguarda para dar cobertura.
— E nós? Perguntou Marieta. A gente dá o alarme e fica aqui? Necas de pitibiribas. Nós vamos subir, nem que seja depois do prefeito.
Lutércio não gostou daquela referência à sua posição, mas acabou concordando, por justiça aos descobridores do E.T.
A subida começou, com os soldados à frente, apesar do único escuro que eles, na verdade, conheciam era o da guarita, onde cochilavam à noite, ou do muro do quartel, quando convidavam as mocinhas de vida comprometedora para as safadezas.
O pisca-pisca lá em cima havia parado, mas continuavam a subida. Agora com mais cautela, porque os E.T.’s poderiam ter apagado as luzes por terem percebido que haviam sido descobertos. Ainda bem que a lua cheia estava ajudando, naquela escuridão.
— Espero não dar de cara com nenhuma cobra, disse Arlindo.
Marieta soltou um gritinho e agarrou o braço do compadre. Justina deu um puxão no marido:
— Te aquieta, comadre, que vão ouvir a gente.
Daí em diante, todo galho era uma serpente para Marieta, que estava prestes a ter um chilique. Os mais grossos, então, eram jibóias horrendas, senão sucuris. Justina, tanto quanto era possível naquele escuro prateado, ficava de olho na distância entre a comadre e seu marido.
Estavam a uns quinhentos metros quando a luz piscou mais uma vez, por detrás de uma moita.
— É muito pequeno para ser uma nave, disse um dos repórteres.
— Lembra do módulo lunar? De repente, eles têm algo semelhante para descer, aqui, e a nave mãe está lá em cima. Era o enviado d’A Capital que se manifestava, mais querendo divertir-se que esclarecer.
Quando chegaram a menos de cem metros, o sargento chamou o prefeito e disse:
— Aquilo me parece um carro com um casal na safadeza.
— E a piscação?
— Devem estar dando cotoveladas e pontapé para tudo quanto é lado. De repente, é a perna da mocinha que está nas alturas e já acertou alavanca de pisca, de seta e tudo o mais.
— Sargento, respeite as senhoras presentes, por favor, pediu o prefeito.
O sargento ficou vermelho e agradeceu aos céus por ser noite.
O delegado olhou melhor, à medida que se aproximavam:
— É o carro do Tião Ferreiro com o filho dentro.
— E quem será a vadia? Disse o prefeito. Vamos acabar com essa sem-vergonhice.
Chegaram mais perto, com as lanternas iluminando os dois jovens assustados, dentro das poucas roupas que restavam.
— Lucinha! Berrou o prefeito.
A filha de Lutércio cobriu o que deu com os braços e quase enfiou a cabeça debaixo dos bancos.
Quando o prefeito deu-se conta da periferia da situação, os repórteres já estavam longe.
Pensou em ir atrás deles, pensou na filha naquela situação despudorada, na sua carreira e não se sabe mais em quê. Caiu sentado no chão e sua vontade era de ser absorvido pela terra. Mas conseguira seu intento, embora por outras vias. No dia seguinte, Sorriso do Sopé era notícia:
• EXTRA-TERRESTRE ASSUME FORMA DA FILHA DO PREFEITO DE SORRISO DO SOPÉ
• OBJETO VOADOR NÃO IDENTIFICADO ACABA SENDO IDENTIFICADO EM SORRISO DO SOPÉ
• LUCINHA: O E.T. DA MONTANHA
• FILHO DE FERREIRO É ESPETO
E Justina, que achou que teria assunto por um mês, não pára de falar nele até hoje.
15 e 16/10/2000.
22. ETERNA COMO OS DIAMANTES (Voltar ao sumário)
Não o procurei, mas você já estava lá. Não lhe contei minhas aflições, mas você já as conhecia. Sem que lhe pedisse, você vendeu-me a esperança, a confiança e a fé no ser humano e não esperou pelo pagamento. Quando caí, não se importou nem quis saber se minhas mãos estavam sujas de lama. Simplesmente as puxou e me pôs de pé. Mesmo antes que lágrimas molhassem meu caminho, o lenço já repousava em sua mão forte mas serena, aguardando o momento de consolar.
Quando caluniaram meu nome ou mesmo disseram duras verdades sobre mim, você fez-se meu advogado e limpou meu nome. Não se importou se eram medíocres ou poderosos aqueles que me acusavam. Não se acanhou ante a perspectiva de cair junto. Não vacilou. Pulou à frente da turba e bradou: “Que atirem a primeira pedra. Estarei à frente do meu amigo, para dividir com ele a dor da agressão.”
Um dia, você viu-me fraco de caráter e lembrou-se, tão quanto me lembrou, de que eu era humano. Não bastou compreender-me, mas fez com que eu próprio me compreendesse. Isso fez com que eu ainda me respeitasse e, mais uma vez, pusesse-me de pé. Humilde desta vez, mas de pé. Eu, um pássaro sem pouso. Você, a árvore acolhedora. Silenciosa em sua majestade, mas acolhedora.
Empilharam-se os anos, os caminhos conduziram-nos a locais distantes. Deixamos de ver-nos, mas ficou a lembrança das lições ensinadas sem arrogância e, muitas vezes, até mesmo sem palavras. Apenas o gesto e o exemplo eram os instrumentos de ensino.
Acidentalmente, ou programado sabe-se lá por quem, voltamos a nos encontrar. Sim, os anos desgastaram sua aparência, mas não o seu brilho. Você mostra-se um pouco frágil, devido, talvez, aos vendavais que avassalaram sua copa. Ou – quem sabe? - por ter abrigado tantos pássaros. Ainda assim, oferece-me um sorriso e um abraço que, mesmo sem palavras, me diz: “Amigo, há quanto tempo?” Quase que encolho envergonhado, por não ter estado com você, quando o vento soprou forte. Mas, consciente de que a ausência não fora por mim ou por nós premeditada, reaproximo-me e devolvo-lhe a ternura do abraço. Sinto que é quase como se lhe estivesse ministrando o remédio depois da doença já se ter ido. Este abraço, porém, parece aquecer-lhe a alma. Você, então, vira-se humilde e, ao mesmo tempo, grandioso e simplesmente diz: “Obrigado. Muito obrigado.” Vejo-o remoçar-se, nesse momento, e tudo se passa como se ainda estivéssemos lá distante no tempo, imersos na nossa juventude. Os papéis inverteram-se? Não. Claro que não. Porque, na amizade profunda e sincera, não há positivo e negativo, não há em cima e em baixo, não há ator principal e ator coadjuvante. Simplesmente, somos co-artífices da mesma obra e esta, para nossa felicidade, não se deixa corromper pelos anos. É tão ou mais eterna que os diamantes.
01/11/2000
23. IVETI (Voltar ao sumário)
Parece que está errado, não é? Mas não está. Ou melhor, está errado na ortografia, mas não na grafia documentada. É assim mesmo que se escreve seu nome. Com “i” no final. Ela nunca me confessou, mas acho que tem até orgulho disso. Tinha que ser alguém especial até no nome. Quando a conheci, devido a um lenço na cabeça e dois irmãos, tendo um deles menos de dois anos e o outro menos de quatro, pensei que fosse casada e já estivesse na casa dos trinta ou até trinta e cinco anos. Hoje, ao vê-la com seus cinqüenta, penso que ainda está lá pelos vinte. É uma graça a minha Iveti.
Não dessas graças do tipo “dondoca”, que cultuam o corpo físico preocupadas apenas com as aparências. Mas do tipo que preserva a elegância no vestir, cuida da aparência com o zelo de um bom jardineiro e descobre, cada vez mais, as delícias da alma. Talvez ainda não saiba que são delícias mas já descobriu onde encontrar os quitutes.
Aos vinte e três anos de casamento e quatro e meio de namoro, paro para fazer um balanço do que tem sido estar com ela. Poderia materializar o sentimento dizendo que ainda trago na mão direita a aliança de prata do tempo de namoro. A da esquerda, de ouro, quase que formaliza a união. A da direita mostra a espontaneidade do fato.
Dizer que a Iveti é esposa, companheira e namorada já está muito batido, talvez banalizado. Ir em frente nesse livro sem falar dela seria uma injustiça, talvez mesmo uma desconsideração. O que escrever, então, meu Deus? Vou ter que reinventar a qualificação da pessoa amada. Mas quem disse que temos que qualificá-la? Esta questão é mais profunda. Quem sabe se não é transcendental? Eu tenho certeza de que a resposta é sim. Não me peça para prová-lo pois eu não saberia como, não haveria como e não estou interessado em fazê-lo. Da mesma forma que, no dia em que eu estava no ônibus de partida para São Paulo, seu simples “Vá com Deus” fez-me renascer a crença no ser maior, criador de tudo. Não haveria com prová-lo e eu não queria essa prova. Bastava voltar a crer. Esse, talvez, seja o ponto mais culminante do nosso relacionamento. Embora a vinda dos filhos seja um acontecimento espetacular, essa redescoberta era o meu reencontro com a essência de viver, razão pela qual enfrentamos tantas tempestades sem perder o ponto futuro.
Mas ela não ficou satisfeita com isso, pois queria uma construção a dois e lembrou-se disso até quando fiz meus dois cursos de pós-graduação. No curso de mestrado chegou a montar circuitos eletrônicos para mim, várias vezes. Eu corrigia o projeto e ela desfazia e refazia ligações. Na fase final do doutorado, atravessamos a última noite digitando e imprimindo. Sem dormir uma hora sequer.
Tudo isso parece pouco e muitos podem dizer que qualquer esposa faria isso, mas eu não quero saber das outras esposas. Estou falando da minha Iveti com “i” no fim. Aliás, outro dia, vi escrito em algum lugar outro nome como o dela, mas era com “Y” no começo – Yveti. Não era a mesma coisa, não tinha o mesmo charme. Que me perdoe a Yveti, mas com dois i’s somente a minha.
Não falarei dos seus dotes profissionais como engenheira hidráulica. Isto fica para outro forum. Aqui só cabem a Iveti esposa, a Iveti namorada, a Iveti companheira. Ah, não! Caí nessa. Eu tinha prometido a mim mesmo que não o faria. Agora já é tarde.
Mas o mais gostoso nessa relação é o arrebatamento que ela me causa, quando a observo sem que ela saiba. Acho que não sabe. Mulher tem dessas coisas de mistério, de fingir que não está notando nada, só para aumentar o charme, mas no fundo não perde nada. Mas continuando, quando estamos de saída para o trabalho, eu tiro o carro da garagem e, enquanto ela fecha o portão, eu fico observando seu corpo meio de menina, as pernas bonitas, bem feitas (mesmo aos cinqüenta, gente!). Às vezes isso até me provoca um suspiro. Há outras situações em que faço esse tipo de observação oculta, calada, porém louco de vontade de que ela perceba.
Para ficar mais irresistível, ela resolveu, agora, colocar aparelho nos dentes. Imaginem! Está sofrendo mais que o aleijado que esqueceu as muletas em casa. Vive mencionando os seus “porcos-espinhos”. É o nome que dá aos ferrinhos que cutucam as gengivas, esfolam as bochechas e arranham a língua. Um efeito colateral do uso do aparelho é a dificuldade de comunicação, de vez em quando. Para evitar que os “porcos-espinhos” a machuquem, ela coloca umas massinhas sobre eles. Nessa hora, surge uma vontade irresistível de conversar e, com uma mão dentro da boca, ela diz:
— Argh, urgh, orgh, irgh.
— O quê?
Ela repete e eu não entendo de novo. Um dia desses extrapolou. Tentou falar com as duas mãos na boca (não todos os dedos, é claro).
Encerrando esse retrato escrito, vejo que ela dorme tranqüilamente, enquanto a descrevo. Parece que pousa para esse retrato. Ou seria um quadro? Brota, de novo, aquela ternura, aquele carinho que sua presença desperta em mim. E mais uma vez a certeza, que não pede provas, da existência de Deus, faz-se viva em mim. Alguém tão bacana, que dá um sentido tão amplo e duradouro à minha vida, só pode ter sido criado por um ser infinitamente superior. Que Ele embale seus mais belos sonhos. Boa noite, minha Iveti com dois i’s.
04/11/2000
24. A LOUCURA DO ELOGIO (Voltar ao sumário)
Erasmo estava, realmente, satisfeito com o trabalho que José, o pedreiro de sua casa, estava fazendo. Era uma pessoa metódica, assídua, competente e caprichosa. Fazia parte de sua rotina, em todo final de dia, providenciar a limpeza da obra. Nunca faltava e só aceitava pagamento de uma etapa após seu término. Dizia que, se recebesse antecipadamente, iria sentir-se devedor e isso tirava-lhe o sossego. Tinha boas soluções para praticamente todos os problemas que surgiam, levando muito pouco para ser resolvido pela engenheira da obra. Não admitia serviço mal feito. Certo dia necessitou cuidar de assuntos seus junto ao banco e, com a anuência de Erasmo, ausentou-se no período da tarde. Seu pedreiro auxiliar levantou uma pequena parede de uns oitenta centímetros de comprimento. No dia seguinte, José viu que ela não estava perfeitamente alinhada. Não teve dúvidas: derrubou-a e tornou a levantá-la ele próprio.
José era, sem dúvida, o pedreiro que todo mundo gostaria de contratar. Não havia como Erasmo não sentir satisfação. Dado o respeito que ele sentia pelo profissional, a relação contratante/contratado transformou-se em grande amizade e, por não ter ainda aprendido com a vida ou com pessoas mais experientes, Erasmo cometeu seu grande erro. Começou a manifestar sua satisfação na forma de elogios a José e fazia-o não a terceiros mas ao próprio pedreiro.
A freqüência com que Erasmo fazia isso e o fato de todo ser humano trazer dentro de si o gérmen do orgulho destruidor fizeram com que José não somente recebesse de bom grado os elogios, mas também passou a valorizar-se sem a necessária humildade. Consciência do próprio valor é algo positivo, mas, quando isso transforma-se em vaidade, os danos podem ser grandes.
Não houve nenhum dano ao relacionamento entre ambos nem à forma responsável com que José conduzia o trabalho, mas aconteceu algo pior que isso. O ser humano antes humilde partiu para novas obras com a índole modificada. Seu próximo contratante era conhecido de Erasmo e relatou-lhe as dificuldades que estava tendo com o pedreiro.
O próprio Erasmo encontrou-se com José algumas vezes e notou que ele vangloriava-se do seu trabalho. Percebeu, então, o mal que havia causado. No afã de valorizar o profissional, prejudicou o ser humano. Passou a fazer uma reflexão do seu modo de ser e constatou, para tristeza sua, de que o elogio exacerbado era uma característica sua. Quantos outros teriam sido prejudicados por isso?
Começou a avaliar o poder do elogio e comparou-o a certas substâncias, como a estricnina. Em pequenas doses, muito bem planejadas, pode curar. Em grandes quantidades, torna-se letal. Ocorre o mesmo com o elogio. Há aquele que motiva, que reergue a pessoa, que reconquista sua auto-estima. Mas, quando a dose é grande, podemos ver resultados como o de José. Por ser poderoso, o elogio pode ser arma que destrói, deliberadamente, quando aplicado de maneira insidiosa, visando uma ação demagógica ou pretendendo que seu alvo perca o norte dos verdadeiros valores da vida. Por ser poderoso, enfim, deve ser guardado com a cautela de quem guarda a estricnina, que um dia poderá curar, se devidamente utilizada. E, no frasco em que for colocado, um rótulo deverá conter em letras vermelhas o aviso:
“Mantenha fora do alcance dos incautos.”
19/11/2000
25. O RUGIDO DO VELHO LEÃO (Voltar ao sumário)
A hiena passou meio distante, receosa. Fitou o velho leão que tinha o olhar perdido em nada, fixo talvez numa imagem que o passado levara. Aproximou-se um pouco mais e não notou qualquer reação no grande felino. Diminui a distância. Observou. Estava quase abocanhando os restos de uma caça quando ouviu um rugido forte a aproximar-se. Era o jovem leão. A hiena debandou em disparada. O jovem reverenciou com um olhar o ancião. Deitou-se ao seu lado em silêncio. O passado começou a desfilar em sua memória e ele reviu os dias em que era pequeno e brincava inconseqüentemente com seu irmão. Não tinha, então, o hábito de preocupar-se com o que ocorria à sua volta. Seu pai fazia isso por ele. Não havia ameaça que ele não pudesse afastar. Nunca houvera.
O tempo foi passando e eles foram crescendo. Começaram a cuidar-se. Ensaiaram as primeiras caçadas e já se julgavam superiores. Não queriam mais orientação, pois tinham as melhores técnicas e as melhores estratégias, na sua opinião. Um forte rugido do pai punha ordem na situação quando os filhotes ainda adolescentes ultrapassavam os limites da própria segurança ou do respeito. A paz voltava a reinar, embora com beiços caídos.
Os anos, que não estão ancorados a nada, seguiram céleres e os que eram frágeis fortaleceram-se e o que era forte alquebrou-se. As pernas, que antes corriam, agora permitiam apenas que caminhasse. A temida patada diminuía em intensidade. O olhar enxergava mais no tempo que no espaço. O rugido, agora rouco, não tinha mais vontade de sair. Mas o velho leão ainda queria viver. Sonhava com grandes caçadas. Galgava distâncias atrás de antílopes, com desenvoltura. Sentia seus caninos aferrando-se em suas presas. Tudo em sua mente.
Enquanto isso, à sua volta, o mundo, que herdara do tempo a natureza indômita, continuava a se movimentar, numa velocidade vertiginosa, que ele não conseguia mais acompanhar. A troca dos cenários que compunham sua vida era tão rápida que ele não conseguia decorar mais onde estavam cada pedra, cada arbusto, cada árvore, cada ameaça. Isso atordoava-o e ele perdia-se. Pior que se perder na floresta era perder-se dentro de sua própria cabeça. Pior que não compreender o mundo era não compreender mais a si próprio. Era não entender as transformações que estavam ocorrendo e não saber como aquilo tudo iria terminar. Às vezes, o velho leão desanimava e achava que nada mais fazia sentido. Onde foram parar suas forças? Por que as pernas não correspondiam mais às suas expectativas? Por que a pata não era tão ligeira quanto antes? Por que tudo isso levara junto, para longe, o respeito que antes sentiam por ele?
O jovem leão, ao seu lado, velava pelo seu alimento para afastar as hienas. Sentiu que todos os demais membros do grupo olhavam para ele, esperando uma decisão. A situação não poderia continuar como estava. O jovem angustiou-se. Sentia respeito pelo seu pai, por tudo que ele fizera quando possuía vigor. Sabia que ele próprio não estaria ali se alguém forte não tivesse velado pela sua segurança durante a imaturidade. Seria justo retribuir tal velo com o desprezo? Agora que as posições de forças invertiam-se, o mesmo não deveria ocorrer com o velo?
O velho leão sentiu a situação de conflito do filho. Viu a cobrança quase explícita por parte do grupo. Num último e descomunal esforço, encheu os pulmões o quanto pode e rugiu forte. Foi um rugido que se espalhou por toda a floresta e mostrou que o velho leão ainda estava ali. Que os adultos mais jovens cuidassem de seus afazeres para garantir a continuidade do grupo, mas que não esquecessem que o velho leão ainda respirava e rugia.
11/01/2001
26. ELE CHEGOU (Voltar ao sumário)
Luzes espalharam-se pelo céu. Ou devo dizer pelos céus, já que elas faziam-se presentes no céu de São Carlos, no céu de São Paulo, no céu do Rio de Janeiro, etc.? Estrondos acompanhavam as luzes, o que levava Sacha à loucura. Falo de nosso cão, que tem um nome russo, masculino ao contrário do que pensam alguns. Ele fica maluco quando ouve os ruídos dos fogos de artifício. Aliás, quase ganho o prêmio A FRASE DO ANO, quando disse que o Sacha, ao escutar os fogos, fica irracional.
Pessoas abraçaram-se, auguriando um ano com novas realizações, como habitualmente fazem às 24h00 do dia 31 de dezembro. Muitos, a essa hora, já não tinham sequer noção de onde estavam, tal a dosagem alcoólica a encharcar-lhes os cérebros. Alguns, ainda, entoavam o antigo “Adeus, Ano Velho. Feliz Ano Novo.”
Finalmente, ele chegara: 2001. O ano da odisséia no espaço, quando o computador já dominaria o ser humano. De certa forma, é exatamente o que está ocorrendo. Nesta virada de ano, havia em todos, aquela sensação do fantástico, da magia, do sonho transcendental, tocando a campainha de nossas portas e esperando que a abríssemos para que pudesse entrar. E assim todos inebriaram-se até altas horas, avançando na madrugada. O galo já agitava as asas, quando as últimas pessoas foram para casa ou para a cama.
O sol iniciava nova trajetória descendente, quando o povo começou a acordar. Eu, porque os anos não mais me têm permitido longas horas na cama, estava de pé há um bom tempo, quando o pessoal lá de casa começou despertar. Como todos no mundo, notamos que a vida não havia mudado muito. Ou seria nada? Os clubes estavam imundos, necessitando do trabalho pesado do pessoal da limpeza, como no ano passado. Para os que comemoraram em casa, a pilha de louça suja aguardava, pacientemente, que eles a lavassem, exatamente como ocorrera um ano antes e nos outros.
Os que possuíam dívidas continuaram em débito, os doentes não alcançaram a saúde porque mudou o século, o vestibular ainda teria que ser enfrentado, a farinha do pão ainda teria que ser amassada.
Afinal, onde estava a grande mudança esperada com a chegada do terceiro milênio?
Terceiro Milênio! Eis aí um nome que foi cantado, usado e esfregado até ficar puído! Seminários sobre a situação desse ou daquele setor no terceiro milênio. Propagandas de lojas com alusões do tipo “A pizzaria do terceiro milênio”, “O banco do terceiro milênio” e assim por diante.
Tudo isso alardeado aos quatro ventos, criando uma atmosfera de expectativa e, de repente, o nada, a mesmice. Parece que ninguém lembrou-se de que a esperança, irmã maior da expectativa, não é um sentimento para sentar-se numa cadeira ao lado da nossa, para que fiquemos a apreciá-la. Ela é um combustível, um motivador, uma centelha de ignição. Aplicamos um estímulo a algo ou a alguém e esperamos o resultado. Ou seja, não podemos ou não devemos retirar esperança do nada. Para ela existir, não basta ser expectador. Necessita-se de um fato gerador para que possamos ficar na outra extremidade da linha a aguardar algo surgir.
Devemos, então, desistir de esperar por um milênio melhor? Claro que não! Ele será melhor! Mas não apenas porque torcemos para que o seja, mas porque o faremos melhor! O que é um milênio? É mais que um período de mil anos. É o conjunto de realizações do ser humano, em todas as áreas de sua expressão, durante esse período. Quer material, quer moralmente falando-se. Portanto, se almejamos um Terceiro Milênio de letras maiúsculas, maiúsculos deverão ser nossos esforços para sermos melhores e trabalharmos para marcar uma época. E isso, é claro, não poderia já ter sido conseguido somente porque as toneladas de fogos de artifício foram maiores nesse ano. Elas foram apenas o sinal de largada. E já estamos em plena corrida, com a diferença de que, desta vez, somente poderá haver vencedores se todos chegarem juntos. Os da frente puxando os de trás e estes animando-se para superarem-se e colocarem-se pari passu com os líderes.
21/01/2001
27. MINHA TERNA EXPANSÃO (Voltar ao sumário)
Avida tem sido um tanto quanto generosa para comigo e com minha família. Digo a vida para ser genérico, abrangente. Poderia dizer “Deus”, ou “Os anjos”, ou “Os santos”, ou ainda “A natureza”. Para respeitar crenças e, talvez ser ecumênico, digo apenas “A vida”, já que, para mim, ela é a mais profunda e ampla expressão de todos esse conceitos e, mais que isso, Deus e vida confundem-se dentro de minha existência e de minhas crenças.
Alguns poderão não crer na generosidade acima aludida, indagando se não há problemas em nossa família. Oh, eterna ilusão do ser humano, essa de pensar que a felicidade habita as nuvens em que anjos tocam harpas ou liras! Não é de momentos vazios que se compõe a nossa plenitude moral ou intelectual. Nossa inteligência anseia por desafios, pois eles são seu alimento. Sem eles, ela definha-se, tal qual ocorre com o nosso corpo quando privado de comida.
Claro que temos nossos problemas, que procuramos eliminar, como todos o fazem. Mas é graças a eles que estamos de pé, mais fortes hoje que em tempos passados. Quando falo da generosidade da vida, refiro-me à união da família, com suas naturais divergências, ao riso dos meus filhos, quando me torno moleque com eles, à sua saúde, com limitações que a medicina atual e nossos recursos financeiros têm resolvido, ao respeito de cada um pela opinião do outro, ainda que às vezes os ânimos se exaltem, à nossa situação econômica e financeira, que não nos deixa faltar o que de fato necessitamos e nem sobrar de maneira perniciosa à nossa formação moral.
Isso tudo reflete-se de maneira muito positiva em nós, transformando-nos em verdadeiros magnetos humanos a atrair a boa vontade das demais pessoas. Tenho tido a oportunidade de sentir o efeito dessa interação e de notar o sorriso espontâneo, o abraço sincero e desinteressado daqueles com quem convivemos. O que será isso? O que está ocorrendo? Os tempos estão mudando? Eu estou mudando? Ou as pessoas estão mudando? Será importante encontrar resposta a essas perguntas? Talvez sim, para potencializar essa ação positiva, mas creio que o mais importante, de imediato, é deixar que esse sentimento expanda-se e envolva cada vez mais pessoas e cada vez mais intensamente a nós mesmos. Não de uma forma avassaladora porque a avalanche, embora bela, é destruidora. Mas de uma forma natural, terna, que dê tempo à acomodação dessas forças dentro de nós. É essa expansão que tenho sentido ultimamente. Algo meio inexplicável. Sinto-me maior, não em termos de status perante a sociedade ou de importância. Maior como se o limite de minha pele, ou do que ela capta, estivesse muito além das minhas dimensões físicas. É um sentimento de estar bem com todos, onde cada antigo amigo é mais íntimo e cada estranho torna-se um novo amigo. É não saber onde termina a família e onde começa a lista de amizades, compondo todos um amplo amálgama que, ao invés de confundir, conforta. É conhecer a força que podemos ter quando descobrimos nossas fragilidades e elas nos impelem à união que as suplanta. Cresço além de mim e quase perco minha identidade sem deixar de ser uma individualidade. Amo a todos por ser por todos amado. Sou por todos amado porque os amo. É uma roda viva que cura, que alimenta, que faz crescer.
22/01/2001
28. FRAGMENTOS (Voltar ao sumário)
Cerca de dois ou três anos. Esta era a idade que eu tinha na lembrança mais antiga que chega até mim. Nunca pensei ou acreditei que alguém pudesse alcançar a recordação de um fato tão distante. Mas lembro-me do ocorrido e minha mãe relata que a idade era essa. Havia uma pequena caneca de alumínio. Na verdade eram duas: uma azulada e outra avermelhada. Tinham uns quatro centímetros de diâmetro e cinco de altura. Eram cilíndricas e o fundo arredondado, ou seja, a parede lateral não tocava a superfície onde se apoiava numa aresta bem definida.
Certo dia, minha mãe havia utilizado querosene para fazer limpeza de alguma coisa e deixou o resíduo dentro de uma dessas canecas. Encontrei-a e devo ter pensado ser algum suco ou refrigerante. Não sei se existia ou era comum o guaraná, nessa época. Mas lembro que ingeri o que havia na caneca. Não tenho uma exata recordação das conseqüências. Sei que foi horrível. Algo como acesso de tosse ou vômito. Certamente não morri. Acho que não.
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Outra lembrança de minha infância, com todas as imprecisões que minha falha memória consegue criar, vem de um período de festas juninas. Hoje, proíbo crianças que estejam sob meus cuidados de brincarem com fogos de artifícios. Mas eles fascinavam-me, naquela época, como acontece a todas as crianças. Estávamos reunidos num grupinho de uns cinco garotos. Eu era um dos mais novos. Fazia parte daqueles que não sabem nada e observam a ação dos mais velhos, os sabichões. Um deles pegou um cilindro fechado em umas das extremidades, com diâmetro de uns dois centímetros e igual altura. Lembre-se da imprecisão da minha memória, caso queira repetir o grande experimento. Alguém conseguiu encher o cilindro com pólvora. Não sei onde a conseguiu. Talvez desmontando algumas bombinhas. Socou bem o conteúdo e preparamo-nos para o grande momento da explosão. A tensão e a expectativa eram enormes. Não me recordo se foi usado algum pavio ou rastro de pólvora. Apenas sei que, quando foi jogado o palito de fósforo aceso sobre o alvo, cada criança correu para um lado. Minha corrida era desenfreada e desesperada, como se fosse perder a vida. De repente, tropecei e fui com os dentes contra o canto de um muro baixinho. Quebrei um dente. E a bomba não explodiu.
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Meu ingresso no curso primário deu-se aos dez anos de idade. Mas isso será relatado mais adiante. Cito-o, aqui, apenas para dizer que até então minha vida era parecida com a de um passarinho, tendo duas etapas. Na primeira, vivia numa gaiola. Meus pais trabalhavam e meu irmão, sete anos mais velho, vivia na rua. Até os sete anos, aproximadamente, ficava só em casa, com as portas trancadas. Minha mãe, por conta disso, tinha fortes crises nervosas cada vez que ocorria uma tempestade, estando ela no serviço. Mudamos, então, para outro bairro e o passarinho saiu da gaiola. Era tão afastado que minha mãe não devia ver perigo em me soltar. Quando estava aí pelos nove anos, compunha um grupo com crianças mais novas que eu ou da mesma idade. Divertíamo-nos o dia todo. No início, era só na rua, soltando pipas (chamávamos de quadrados) ou brincando de cowboy. Com o passar do tempo, a brincadeira começou a vir para dentro de casa, mas com um esquema peculiar. Minha mãe não queria bagunça em casa. Como ela trabalhava em turnos em uma tecelagem, havia sempre um período em que eu estava sozinho. Nesse período, trazia a turminha para dentro. Na época, a luta livre era a grande sensação da TV. Aliás, como nem todos possuíam o sonhado aparelho, era comum assistí-lo na casa de vizinhos, o que gerou o termo televizinho. Nossa principal brincadeira, então, era a luta livre. Fazíamos o ringue na sala de estar, cravando pregos nas paredes e amarrando barbantes neles. Como os furos não eram vistos pelos meus pais eu não sei. Nessa época, provavelmente eu não sabia ver as horas, pois perguntava por elas de tempos em tempos à nossa vizinha, de modo a evitar que minha mãe nos flagrasse na farra. Pouco antes do horário de seu retorno, desmontávamos tudo, dávamos uma ajeitada geral no ambiente e a molecada ia embora. A vizinha percebeu a malandragem, o que não era difícil, e resolveu acabar com ela, sem precisar falar nada para ninguém. Foi muito simples sua estratégia. Mentiu no horário. Minha mãe chegou a tempo de pegar o último assalto da luta. Fomos todos nocauteados. Fiquei branco, azul, roxo. Tomei uma surra daquelas. E a nossa programação de lutas livres domésticas foi cancelada.
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Nos dias de hoje, minha mãe costuma dizer que eu era uma criança muito boa e que só precisou bater em mim três vezes: quando quase pus fogo na casa, quando armei o ringue em casa e quando a desmenti. A do ringue, vocês já sabem. Vamos às outras. A primeira ocorreu naquela primeira fase de minha infância. Eu costumava ficar na janela da minha casa olhando para o corredor lateral, cantando com o rádio de casa toda a sorte de música que era tocada, inclusive as que hoje detesto. Por essa janela eu via, ou melhor, ouvia os rumores do mundo exterior. Chegou, numa dessas ocasiões, a época dos balões e, quando estava em com minha família, ou pelas atividades de meu irmão, eu tinha uma noção muito incompleta do que era um balão. Num desses dias, fiz algum arranjo com um jornal (seria uma maçaroca?), coloquei-o sobre a máquina de costura que ficava próxima à janela e ateei-lhe fogo. Meu irmão deve ter chegado pouco tempo depois, conseguindo evitar uma tragédia. O meu “balão” queimou-se, fez o mesmo com a toalhinha da máquina e chamuscou o seu verniz, sem causar outros danos maiores.
Quando minha mãe chegou e soube do ocorrido, ficou tão nervosa pelo que poderia ter acontecido e, para evitar que um dia se consumasse, aplicou-me uma de suas poucas três surras (eu acho que foram mais, porém, mãe não mente; mas engana-se).
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Meu pai trabalhava na Companhia Municipal de Transportes Coletivos – CMTC – da cidade de São Paulo. Foi cobrador de ônibus, funileiro e chefe de sessão de funilaria. Quando era funileiro, numa manobra de ônibus, na garagem da empresa, foi prensado contra o carrinho que continha os cilindros de oxigênio e acetileno. Teve a bacia fraturada em três locais, o que o manteve engessado no hospital, durante três meses. O bairro em que morávamos, o da segunda infância, era muito pequeno e todos conheciam-se. O nosso barbeiro, quando soube do acidente, comentou com minha mãe que meu pai nunca mais seria o mesmo, nunca mais andaria. Ela adquiriu uma antipatia indestrutível por aquele homem, que, na sua falta de tato, talvez quisesse ser solidário.
Algum tempo depois, o barbeiro tocou a campainha de nossa casa. Minha mãe atendeu.
— D. Marina, vocês têm ferro de solda.
— Não tem, não.
Eu, na minha inocência infantil, achei que ela estava mal informada. Estufei o peito e disse:
— Tem, sim. Tem três.
Minha mãe, rapidamente, consertou:
— A gente tem, mas estão emprestados.
Ele foi embora e minha surra foi mais substanciosa que as outras duas.
*
Como era de se esperar, houve uma grande mudança em minha vida, quando entrei na escola, aos dez anos de idade. Era o primário, equivalente aos primeiros quatro anos do atual primeiro grau. Por que tão tarde o meu ingresso? Já expliquei isso a tanta gente e agora o faço por escrito. Com o fato de meus pais trabalharem, minha mãe tinha receio de que eu não saberia me cuidar para ir à escola e foi deixando o tempo passar, nessa situação. Talvez não fosse razoável, mas era essa a sua lógica. Enfim, cuidar da casa e de mim era muito mais complicado e arriscado. De qualquer forma, somente no segundo semestre do ano em que fiz meu décimo aniversário eu comecei a adquirir os conhecimentos básicos. Já sabia ler e escrever em letras de forma, porque minha tia e meu irmão haviam me ensinado. A escola não queria me aceitar por estarmos na metade do ano, mas acabaram concordando. Logo me tornei o primeiro aluno da classe e foi assim durante os quatro anos do primário. Todos consideravam-me muito inteligente e, hoje, vejo como estavam errados. Afinal, eu estava três anos à frente da criançada, em termos de idade. Era de se esperar que tivesse mais facilidade para aprender. Tinha que ser o melhor, mesmo sem ser mais inteligente. Isso trouxe-me uma distorção de formação muito grande, pois cresci acreditando ser realmente muito bom e os fracassos tinham e têm um peso muito maior que o real.
Alguns fatos desse período estão, até hoje, na minha lembrança. Um deles ocorreu logo no início do meu ingresso, quando fui reclamar à professora, no recreio, do fato de que um garoto disse que a pata e o patinho, estampados em minha lancheira, eram minha mãe e eu. Ela me deu uma dessas respostas que os adultos dão para livrarem-se de situações tolas das crianças e eu fui correndo para repassá-la ao ofensor, crente de estar de posse de uma grande saída. Eu era tão grande, perante os demais, e tão infantil quanto eles.
Outra situação interessante foi no exame final do quarto ano. Estudando a invasão holandês no nordeste brasileiro, surgiu o nome do seu líder, João Maurício de Nassau Siegen. Por ser muito extenso e por intuir que cairia na prova, resolvi decorá-lo. Caiu, realmente, e fui o único a acertar e tive nota dez. A revolta foi geral. Todos acreditavam, com extrema convicção, que a professora havia passado as questões do exame para mim. Até hoje não foi possível provar a inocência de ambos. Eu fiquei tão feliz por saber a questão e a dúvida do grupo tirou meu sabor de vitória, pois pairou no ar o clima de sabotagem. Somente a professora acreditou em mim. Mas também ela estava sob suspeita, segundo eles.
Na festa de entrega dos diplomas deu-se um outro acontecimento engraçado, quando reavaliado hoje. Por ser o primeiro colocado da turma, meu nome seria o último a ser chamado. À medida que os alunos recebiam seus diplomas, as palmas diminuíam. Pensei que as minhas seriam a coisa mais inexpressiva desse mundo, mais sem graça que ricota sem tempero. Não foi o que se deu. A platéia explodiu em aplausos. Eu fiquei numa emoção sem tamanho. Hoje, penso o quanto isso é cômico: essa minha vontade de ser aplaudido. Dizem que é próprio do virginiano. Talvez seja a distorção de interpretação causada por não notar que era o primeiro por ser o mais velho.
*
Começava aí minha adolescência, intimamente conturbada, como a de todos, mas externamente pacata, pois debaixo do forte domínio de meu pai não havia espaço para revolta ou rebeldia. O tempo foi passando e muitos outros fragmentos foram compondo minha vida. Alguns pitorescos e felizes, outros nem tanto. Mas afinal, também os momentos duros podem trazer felicidade se os vencermos. E mesmo aqueles que não foram vencidos podem ser de alegria pelo simples fato de temo-los enfrentado junto com parentes e amigos que doaram de suas almas esperando ver-nos triunfando. Quem sobe ao podium, na verdade, é sempre um representante de um grupo, pois ninguém está só na vitória.
30 e 31/01/2001
29. FECHANDO A CONTA (Voltar ao sumário)
Estranho como chegar pode trazer, às vezes, a sensação de perda ao invés de conquista. Este sentimento pode até coexistir com o prazer da realização. É a segunda vez que me sinto assim. A primeira foi quando concluí meu doutoramento. Agora é a chegada ao fim desse livro. É como se estivesse trabalhando o mármore e, após o último polimento, tomasse consciência de que nada mais havia a acrescentar. Meses sobre uma obra e, de repente, resta apenas entregá-la. Ao mesmo tempo, ela foi criação e companheira. E agora cessa o diálogo. Acompanhou-me, também, a sensação de conversar com o leitor, que nem sei se existirá, pois os caminhos entre a criação e a publicação são desconhecidos desse escritor principiante. Mais um diálogo interrompido. Talvez, os professores sintam o mesmo em relação a seus alunos nos dias de formatura.
Chegou a hora de avaliar o que foi feito e quero dividir esse momento com quem se deu ao trabalho de percorrer essas páginas. Em termos modernos de cinema, é quase um making of do livro.
Como tudo isso começou? Digo, essa vontade de escrever. Está comigo há muito tempo. Quando cheguei ao final do primário, ganhei dois livros de presente: O Guarani e As Viagens Maravilhosas de Marco Pólo. Eram edições adaptadas ao público infantil. O fascínio que me causaram foi muito grande e fiquei com vontade de escrever. Esbocei algo horrível que, felizmente, perdi ou joguei fora quando meu senso auto-crítico começou a se manifestar. No ginásio, essa vontade ressurgiu nas aulas de português, em que tínhamos que entregar uma redação toda semana. Obtinha boas notas com elas. Na última semana de aula, o professor liberou de entregá-la quem já houvesse passado de ano na matéria. Como era esse meu caso, não a fiz e ele passou-me uma senhora lição, ao demonstrar sua insatisfação pelo fato de que eu, que redigia bem segundo ele, não a houvesse entregue somente porque não precisava de nota. Fiquei envergonhado pela minha atitude e, ao mesmo tempo, contente por saber do meu conceito junto ao professor.
Nas redações no cursinho e no próprio exame vestibular, tive desempenhos que me satisfizeram e a quem dava as notas também. E aí a tal da vocação, se é que realmente existe, ficou esquecida por vinte e oito anos (até eu estou espantado com esse número!), a menos das cartas que escrevia para a Iveti, quando namorávamos.
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No ano de 1999, a empresa em que trabalho, a Embrapa, promoveu um concurso: Festival Embrapa da Arte pela Cidadania. A inscrição foi um quilograma de alimento não perecível. Resolvi participar na modalidade conto. Comecei a procurar, dentro de mim, algo sobre o que valesse a pena escrever como uma contribuição e um convite a uma reflexão sobre o sofrimento do nordestino. Acordei mais cedo um certo dia (5h00) e pedi inspiração para que conseguisse compor um material que fosse mais que um simples objeto de competição. Algo que, mesmo sem vencer, deixasse o tal de convite à reflexão. Escrevi metade do conto e a inspiração sumiu. Alguns dias depois, levantei-me, novamente de madrugada, e concluí meu conto. Não conseguia, então, pensar num bom título. Fiquei dias assim e comecei a avaliar qual era o seu conteúdo. Era, na minha óptica, uma descrição do significado mais transcendental do sofrimento, da aridez, da luta do nordestino. E assim surgiu o título de A Alma do Agreste. O conto obteve o primeiro lugar, em âmbito nacional na empresa, causando-me, na hora da entrega do prêmio, uma emoção que nunca havia sentido, seguida de uma fortíssima dor de estômago. Até hoje, a sua leitura causa-me uma boa sensação e ele é o que mais me agrada nesse livro.
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Acordando foi escrito para o mesmo concurso, mas não foi além da fase local, porque apenas um conto era classificado nessa etapa e ele estava muito aquém do outro.
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Em O Transitório e a Essência, procurei dar continuidade, atendendo ao apelo do meu amigo Sílvio Crestana, à reflexão sobre o problema do nordestino, que não podia ser colocado apenas como uma aceitação de Severino. Havia a necessidade de se falar da responsabilidade da comunidade, o que foi feito na figura do prefeito Gumercindo.
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O objetivo desse último capítulo não é explicar cada um dos anteriores, pois isso tornar-se-ia muito entediante e desnecessário. Quero aqui falar apenas de alguns aspectos e sentimentos envolvidos, que julgo mais relevantes. Primeiramente, o porque do título do livro. Quando comecei a escrever, tinha em mente três livros: um de contos mais sérios, outro de temas humorísticos e um terceiros contendo poemas. À medida que fui escrevendo uma coisa aqui e outra acolá, questionei-me sobre porque não colocá-los juntos. Diminuiria uma provável monotonia e torná-lo-ia mais leve. Seu conteúdo passou, então, a ser de contos, crônicas e poemas, entre outras coisas. Daí o título.
A forma como os temas surgiram foi muito variada. Algumas chegaram a ser mesmo curiosas, para mim pelo menos. Alguma frase vinha-me à cabeça e eu guardava-a. Um dia, sentava-me para compor um conto em que ela se enquadrasse. Este foi o caso de O Futuro… O Futuro… Passou. Estava configurando o meu gerenciador de correio eletrônico e, para testar, enviei uma mensagem para minha esposa que dizia: “Os melhores momentos de nossas vidas, passamos planejando o que faremos quando chegar o futuro. Não percebemos que o futuro chega a cada momento e, de repente, o futuro já virou passado e a vida já passou.” No momento, a frase não estava ligada a nenhuma idéia completa, pré-concebida em minha cabeça. Simplesmente foi nascendo a cada palavra, enquanto eu digitava. Acabei gostando dela e guardei-a para uso futuro. Situações análogas ocorreram com Do Grão à Montanha e Fortes e Fracos.
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Em outras situações, foram fatos ou a vontade me mostrar o estado interior que geraram o tema. Uma Relação Quase Extra-conjugal, por exemplo, nasceu do momento em que apreciava, visualmente, um doce numa vitrina de padaria e imaginei o flagrante de minha esposa. Estava indo para a casa de minha sogra. Quando lá cheguei, escrevi.
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O Medo da Cortina não é ficção. Vivi o fato e coloquei-o no papel, para narrar a angústia passada. Da mesma forma, a necessidade de cortar o nosso velho anjico fez-me por no papel o sofrimento interior. Alguns trechos foram escritos com dificuldade porque os olhos turvaram-se com as lágrimas discretas.
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Houve ocasiões em que a alma fez-se leve, pairou no ar e produziu coisas com os pés fora do chão. Dizem que é bom tê-los em terra firme, mas às vezes flutuar faz-nos ver a vida do alto, com maior abrangência. Assim nasceram De Alma Solta, Um Minuto, Angústia, Eterna Como os Diamantes e outros, cuja leitura é suficiente para enquadrá-los no que acabo de dizer.
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Eterna Como os Diamantes foi escrita para atender à solicitação do meu amigo José Carlos Duarte Pereira, que queria algo sobre amizade para apresentar na reunião anual dos seus ex-colegas de científico (atual colegial).
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Peço desculpas a Erasmo de Roterdam pelo jogo de palavras feito para gerar o título A Loucura do Elogio e o nome do personagem. Pelo menos o conteúdo não teve nada em comum com o clássico daquele autor – Elogio da Loucura.
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Não poderia deixar de narrar o momento difícil pelo qual está passando em sua velhice o meu querido pai. Baiano cheio de fibra, com uma personalidade fortíssima, luta contra a diabetes que o limita e contra os próprios hábitos inadequados, que a alimentam. De qualquer forma, o rugido do velho leão ainda se faz ouvir, mesmo que fraco e rouco. É claro que pouco ou nada entendo da vida dos leões e pode haver incorreções nesse sentido, mas a figura do conto encaixa-se com o sentimento que o momento causou-me, quando se cogitou de que ele deveria ser declarado judicialmente incapaz.
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Certo dia, meu filho Bruno comentou que as páginas de seu maior agrado eram as que narravam momentos da nossa família em que ele ainda não existia. Resolvi deixar para meus filhos, então, alguns fragmentos de minha infância, no capítulo vinte e oito.
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Os personagens dos contos, exceto os da família, foram criados aleatoriamente. O mesmo ocorreu com a escolha dos nomes. O primeiro que vinha à cabeça era utilizado, sem preocupação com o significado ou se existiria alguém com o mesmo nome e com uma história semelhante à do respectivo conto.
As datas de elaboração dos capítulos, às vezes imprecisas, surgem ao final de cada capítulo. Pode-se perceber que alguns iniciaram-se em um dia e terminaram em outro, não obrigatoriamente subseqüente. Houve até casos de um capítulo ser iniciado antes do término de outro.
Vamos parando por aqui. Ou melhor, espero que seja uma breve pausa. Que eu não aguarde mais vinte e oito anos para voltar a escrever. Talvez não haja tempo para tal, ou lucidez. Se você não gostou do livro, deve estar pensando: “Aguarde, sim. Aguarde, sim.” Mas foi bom escrever. Pelo menos para mim. Durante minha própria revisão, fiquei feliz ao reler certos capítulos ou trechos, pois voltei a sentir a emoção que me envolveu no momento de sua criação. Esse foi um primeiro ensaio de quem está decidido a ir em frente. Tenho até um romance em mente e até já comecei as pesquisas de material bibliográfico para sua confecção. Vingará? Quem sabe? De qualquer forma, relembrando Ele Chegou, a esperança deve ser o ato de aguardar uma resposta aos nossos estímulos. Portanto, arregacemos as mangas e mãos à nova obra.
Balanço feito, hora de fechar a conta!
01 e 02/02/2001
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